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Crédito - benefícios e malefícios

Rui Viana Pereira, 19/11/2011

Vimos na secção anterior que os bancos, ao fornecerem crédito, fabricam dinheiro e ganham dinheiro. Quanto maior for o ritmo de concessão de crédito, mais dinheiro os bancos ganharão.

Também vimos que, apesar deste benefício para os bancos, do ponto de vista da população em geral a produção de dinheiro em grandes quantidades não significa mais dinheiro ou riqueza para todos; significa, muito pelo contrário, uma erosão contínua dos salários e um aumento da inflação, que é como quem diz do custo dos bens de consumo.

Veremos agora como o crédito destrói o tecido produtivo duma sociedade.

Quanto mais crédito houver, maior será o fosso entre ricos e pobres

Um dos argumentos apresentados a favor do actual sistema de crédito bancário é bastante sedutor: um sistema generalizado de crédito significa mais dinheiro à disposição de todos. Esta história soa bem, mas contém uma falácia.

Em primeiro lugar, os bancos não dão crédito a torto e a direito [1]. Suponhamos que eu quero comprar um piano mas não possuo propriedades imobiliárias, nem negócios, vivendo apenas de um salário modesto. Suponhamos ainda que não sou um pianista virtuoso (coisa que ainda está por provar) e que portanto não posso garantir a promessa de um contrato para tocar no Scala de Milão ou na Ópera de Nova Iorque por um contrato chorudo. Nesse caso, quando for pedir crédito ao banco, receberei uma rotunda nega e serei tratado com o desprezo que merecem dos bancos todos quantos não possam oferecer garantias pecuniárias, patrimoniais ou outras. Se, pelo contrário, eu puder dar essas garantias, tenho crédito assegurado. Mais ainda: como os bancos neste aspecto não diferem muito do tasqueiro ali da esquina, quanto mais rico eu for, mais «gentilezas» receberei do banco – um bom cliente (aquele que tem muito dinheiro e consome muito) beneficia de juros mais baixos do que um borra-botas com o salário mínimo.

Por conseguinte, a situação que temos é esta: quem já tem muito, terá muito crédito a baixo custo, podendo com isso realizar mais lucros, logo, mais riqueza; quem tem pouco, terá crédito mais caro, ou nenhum, ao mesmo tempo que a inflação lhe vai minguando o parco salário.

Feitas as contas, o crédito, em vez de propiciar a riqueza geral, concentra-a nas mãos daqueles que já têm muito e subtrai-a por diversas vias aos que já têm pouco.

Quanto mais crédito houver, menos dinâmica económica haverá

O argumento seguinte do arauto neoliberal incide no maravilhoso papel que o crédito bancário desempenha no desenvolvimento económico da nossa sociedade. Como corolário, é costume ouvi-lo dizer que, se não garantirmos boa saúde ao sistema bancário (ou seja, ao sistema de crédito), deixa de haver consumo, a produção entra em quebra por falta de escoamento, enfim, a sociedade cai no derradeiro círculo dos infernos e fica condenada ao mais atroz sofrimento e pobreza.

Este argumento é assustador; vence pelo medo. Está na altura de baixarmos os pés à terra e vermos atentamente o que se passa lá em casa. (Nota: para as gerações mais jovens, que já nasceram em plena era do cartão de crédito, o exercício de imaginação que se segue talvez seja de grande dificuldade. Para as gerações anteriores à era do cartão de crédito, trata-se duma realidade vivida e fácil de recordar.)

Se eu não tiver acesso ao crédito, que farei com o meu modesto salário? Em primeiro lugar trato de garantir a sobrevivência: comida, aluguer de um tecto, roupa, educação, saúde, etc. Depois, se porventura sobrar algum dinheiro, e visto que se tratará em todos os casos de quantias reduzidas, terei de pensar muito, muito bem em que vou gastá-lo, e fazer muitas, muitas contas, em vez de gastar o dinheiro à toa (visto que ele não nasce do chão... ou do multibanco mais próximo...). Posso amealhá-lo, juntando-o às sobras de outros meses, ou gastá-lo imediatamente. Consoante os gostos pessoais, irei uma vez por semana ao meu restaurante preferido, ou irei passear ao campo e à praia, ou comprarei um livro, ou irei ao cinema... Enfim, farei um tipo qualquer de dispêndio modesto mas regular, todos os meses. Por conseguinte, desde que o salário não se situe no limiar ou abaixo do nível de sobrevivência, serei um consumidor regular de um certo tipo de bens.

Continuemos a considerar que tenho um salário acima do nível de sobrevivência (e portanto um excedente de dinheiro que posso aplicar em consumos extraordinários), mas desta vez introduzamos um factor novo: o acesso ao crédito.

Nestas condições, se eu tiver sofrido uma autêntica lavagem ao cérebro através de campanhas publicitárias maciças no sentido de comprar coisas que doutra maneira me pareceriam escusadas, talvez eu queira comprar um carro, um ecrã de plasma, uma casa, ou até uma segunda casa de férias na praia. Este crédito implicará o pagamento mensal do principal (o montante do crédito), mais os juros, mais uma série de outras coisas que eu talvez não tenha calculado bem de início: seguros, quota de condomínio, despesas de manutenção, impostos sobre a propriedade, etc. O montante total do crédito, mais os juros, somados aos encargos colaterais, será 4 a 10 vezes o valor inicial daquilo que eu comprei; poderá além disso levar entre 4 anos (um computador) e 30 anos (uma casa) a ser pago.

Durante todo esse tempo em que tenho de reembolsar a minha dívida, viverei mais ou menos no limiar das minhas possibilidades, tendo de abdicar dos livros, das passeatas de fim-de-semana, do cinema, etc. – durante semanas, meses, anos ou décadas a fio deixarei de ser um fiel consumidor de um certo tipo de bens.

Resultado: este crédito trouxe grande riqueza ao banco e a um certo tipo de indústrias, mas a sociedade em geral empobreceu, visto que lhe foi roubado um consumidor regular. Passou a haver menos excedentes monetários aplicáveis em consumo – com especial prejuízo do pequeno comércio, do mercado cultural, etc.

Há um vasto conjunto de bens que deixa de ser consumido, provocando com isso a derrocada de vários sectores da produção do país. Este é um aspecto que não é passível de argumentações ideológicas, porque se desenrola diante dos nossos olhos diariamente, desde que «toda a gente» passou a ter crédito.

Não é por isso de estranhar que os grandes investimentos do banco estejam ligados aos sectores para os quais é dirigido o crédito ao consumo: o crédito à produção das indústrias que exigem grande investimento (automóveis, computadores, construção civil, etc.) é altamente benéfico para os bancos – grandes investimentos pedem grandes créditos; grandes créditos garantem grandes lucros bancários.

Por isso os bancos escolhem criteriosamente os sectores para onde o crédito ao consumo deve ser dirigido – assim sufocando todo o resto da economia. Para tornar a coisa verosímil, vão distribuindo umas migalhas de crédito ao consumo indiscriminado (pago a altos juros) através dos vulgares meios de pagamento por cartão de crédito.

O efeito subjectivo

Como Noam Chomsky muito bem aponta, os actuais poderes políticos e económicos usam e abusam das descobertas das ciências do comportamento nas últimas décadas, e das disciplinas delas derivadas.

O efeito destrutivo do actual sistema de crédito bancário devia saltar à vista do cidadão mais distraído. E no entanto a única coisa que lhe salta à vista é a facilidade confortável com que pode obter crédito ao consumo (sobretudo a um certo tipo de consumo orientado, nunca é de mais repetir).

O que não é tão visível, é este facto simples da vida: ao beneficiar de crédito bancário, o cidadão médio, feitas as contas finais, não tem mais dinheiro – tem menos, ficou mais pobre e consome menos.

Por mais crédito que haja por aí aos pontapés, as únicas entidades que passam a ter mais dinheiro são aquelas que fornecem o crédito – as instituições bancárias. Subsidiariamente, alguns produtores de bens e serviços vêem antecipada a venda dos seus produtos, ou seja, a recuperação dos seus investimentos. Mas ao mesmo tempo estão a secar a fonte de rendimento – o consumidor-devedor.

Em condições normais, o mercado teria de esperar que o consumidor médio amealhasse dinheiro durante um certo tempo, ao fim do qual iria comprar os produtos ao seu alcance. Este tempo de espera não era significativo, pois a totalidade dos consumidores numa sociedade mantinha a «engrenagem» em funcionamento permanente, mensal, até porque as vontades e poupanças das pessoas não caminham todas ao mesmo ritmo, como na natação sincronizada.

Esta era a situação há algumas décadas atrás. Antes da oferta generalizada de crédito, os ciclos económicos eram aparentemente mais lentos, mas na realidade ofereciam uma dinâmica económica, uma segurança e uma garantia que se expressavam de forma muito significativa na longevidade e estabilidade das empresas. Hoje, as empresas abrem e fecham à velocidade da luz; esta velocidade traduz-se de forma directa e inequívoca em desemprego, precariedade, instabilidade, milhares de falências por ano.

Mas afinal esta «dinâmica» acelerada de abertura e falência de empresas e sectores de produção é boa ou má? É boa para os bancos, evidentemente – quanto mais crédito for solicitado, melhor lhes corre a vida.

Quem? Para quem?

Esta secção ilustra bem uma coisa: em política (e portanto também em economia política) a pergunta mais importante de todas, talvez a única realmente importante, é esta: «quem?». Qualquer pessoas que saiba perguntar «para quem?» sabe fazer política – mais nenhum instrumento é requerido, além da capacidade de fazer esta pergunta.

Em termos estritamente políticos, a importância do «quem?» ultrapassa de longe a importância do «porquê?». Daí que a honestidade intelectual dos comentadores que todos os dias vemos na televisão se meça pelo quociente entre a quantidade de vezes que eles dizem «quem beneficia?» e a quantidade de vezes que dizem «porque deve ser assim?».

Sempre que alguém nos disser «isto é muito bom», temos de perguntar imediatamente: «para quem?». Esta é a pergunta fundamental. Sem dúvida, o actual sistema generalizado de crédito bancário é muito bom. Pergunta fundamental: para quem? Pergunta subsidiária: como, de que maneira?

Sendo o tema central deste site a dívida pública, e sendo evidente que a dívida pública implica um problema de crédito como outro qualquer, ficamos a saber que a pergunta fundamental que uma auditoria cidadã deve fazer é esta: a quem beneficia o endividamento público?

Se a dívida pública reverter, toda ela, a favor da generalidade dos contribuintes, então temos de estar agradecidos por isso e pagá-la honradamente.

Mas se a dívida, ou parte dela, não passar de uma artimanha dos interesses particulares que comandam a economia e o sistema monetário (por exemplo, as instituições financeiras privadas), então é uma dívida injusta; devemos repudiá-la e recusar pura e simplesmente o seu pagamento.

 


Notas:

[1] Os argumentos neoliberais primam pela desonestidade e pela artimanha quando advogam que, a bem da sociedade e da economia, o sistema político deve abrandar as suas regras (nomeadamente as regras de controle da banca). Na verdade, o neoliberalismo pretende reforçar as regras!, na condição de serem os interesses particulares da finança a ditá-las. Algumas dessas regras têm a ver com a canalização do crédito para determinados sectores do consumo, em determinadas condições. Outras têm a ver com a desregulamentação da protecção do trabalho e o reforço da protecção do capital. E assim por diante. Em suma, o neoliberalismo é uma forma sedutora de apresentar uma ditadura (da finança privada) imposta sobre toda a sociedade, mascarando-a de «liberdade».

 
 

Índice deste caderno

Economia para Totós
temas: manuais, sistema financeiro, banca
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