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Bancos – os donos do dinheiro e o ciclo do crédito

Rui Viana Pereira, 21/11/2011

A esmagadora maioria do dinheiro actualmente existente está nos bancos ou passa pelos bancos.

O dinheiro pode existir como moeda ou não passar de números lançados em livros virtuais de balanço digital. Na verdade, a maior parte do dinheiro existente é imaginário – a lei autoriza os bancos a criar esse dinheiro sem correspondência com a moeda ou qualquer outro meio de garantia.

A renda

Quando um cliente do banco pede um empréstimo, o banco usa o dinheiro depositado por outros clientes para conceder esse empréstimo. Sobre o empréstimo cobra juros.

Este processo de sacar dinheiro do devedor tem diversos nomes em diferentes línguas; alguns desses nomes são bastante mais explícitos do que a expressão portuguesa juros: assim acontece com as expressões rent e interest. De facto o banqueiro apenas empresta dinheiro na medida do seu interesse em sacar uma renda sobre todo o dinheiro existente (o dele e o dos outros). Se este interesse fosse proibido por lei, o banqueiro fecharia a loja e iria dedicar-se a uma actividade produtiva.

Recapitulemos: dinheiro emprestado provém inicialmente de alguém (os depositantes) e é emprestado a um devedor. Seria lógico pensar que o depositante donde provém o dinheiro inicial recebesse o juro do empréstimo. Assim aconteceria, naturalmente, se o banco não existisse como entidade intermediária e o empréstimo fosse feito directamente entre quem tem um excedente e quem precisa de dinheiro. No entanto, ao instituir-se como intermediário do negócio, é o banco quem arrecada uma renda (o juro).

Mas, perguntarão vocês, o banco não paga também juros ao depositante? Na verdade esses juros são calculados de forma a serem muitíssimo inferiores ao juro de empréstimo e a permitirem uma grande margem de lucro para o banco; na maioria dos casos os juros de depósito reduzem-se a uma percentagem centesimal insignificante; no caso dos salários normais, mensalmente depositados no banco, ou das pequenas poupanças, a renda do depositante acaba por ser negativa, porque os bancos cada vez cobram mais taxas e serviços ao depositante. O depositante médio tem de pagar para pôr o seu dinheiro no banco e usar os respectivos serviços de pagamento virtual.

De modo que na prática a situação é esta:

Perante este ciclo do crédito, é fácil de compreender que os bancos se considerem donos de todo o dinheiro existente.

Os ciclos de maturidade – o time-out

Como já vimos, o banco central toma nota da quantidade de dinheiro depositada nos bancos privados e permite-lhes que emprestem até cerca de 9 vezes esse dinheiro. Existe portanto uma enorme quantidade de dinheiro a ser constantemente fabricada, a render juros e, pelo menos virtualmente, em circulação no mercado, mesmo que não tenha correspondência pecuniária (=não possa ser traduzido em moeda, sendo apenas virtual).

Mas cada empréstimo tem um prazo de maturidade (time-out) – ou seja, um tempo ao fim do qual o capital inicial do empréstimo mais os respectivos juros são integralmente reembolsados ao banco. Passado esse prazo, o dinheiro criado pelo banco desaparece de circulação.

Ora dinheiro a desaparecer de circulação é mau negócio para os bancos. Por isso eles têm de encontrar renovadas formas de emprestarem continuamente, para que o dinheiro virtualmente criado não desapareça e eles, os bancos, não vão à falência.

Além disso, a quantidade de dinheiro (real ou virtual) em circulação determina a quantidade total de meios de pagamento que todos nós possuímos e portanto a quantidade de transacções que podem ser feitas. Como veremos a propósito da inflação, essa quantidade total de dinheiro determina também o preço dos serviços dos produtos (incluindo o «preço» do próprio dinheiro, ou seja os juros) e .

No entanto, estranhamente, a quantia total de transacções de um país não fornece qualquer indicação acerca do valor acrescentado nem da quantidade de bens e serviços produzidos no país.

As transacções

As transacções, como a palavra indica, são trocas de bens e serviços entre entidades diferentes.

Todas as transacções dependem do interesse de cada uma das partes. Se eu tiver um carro mas achar mais interessante ter dinheiro, e se tu tiveres dinheiro mas achares mais interessante ter um carro, estão criadas as condições para efectuarmos uma transacção – toma lá o carro, passa para cá o dinheiro.

Isto é possível porque:

  1. alguém produziu o carro e o pôs no mercado;
  2. alguém fabricou o dinheiro e o pôs no mercado.

Se todo o dinheiro desaparecer do mercado, já não será possível efectuar este tipo de transacções, terá de ser criado outro processo de fazer circular os bens e serviços. Se o fabrico de carros ou qualquer outro tipo de bens e serviços cessar, cessa de vez a circulação de produtos e a transacção; o dinheiro passa a valer zero, porque já não representa nada, nem sequer se representa a si mesmo, uma vez que deixa de haver interesse.

Este simples facto permite compreender a força infinita dos trabalhadores e dos consumidores. Se, de repente, todos os trabalhadores do mundo deixassem de produzir bens e serviços, o dinheiro, e portanto os bancos, deixariam de fazer qualquer sentido. Da mesma forma, se todos os consumidores do mundo deixarem de comprar uma determinada máquina por a considerarem demasiado poluente e prejudicial ao ambiente colectivo, nenhum empresário teria interesse em continuar a fabricar essa máquina; procuraria alternativas menos poluentes para vender, continuar a fazer negócio e ter lucros.

O que aconteceria se todos os empréstimos fossem reembolsados

É bom não esquecermos a noção de valor avançada na primeira parte deste manual: o valor dos bens e serviços mede-se pela quantidade de trabalho neles incorporada → uma parte desse valor é apropriada pelo empresário, a outra regressa ao trabalhador sob a forma de salário → o trabalhador e o empresário são obrigados a depositar o seu dinheiro no banco → o banco usa esse dinheiro para emprestar e fabricar mais dinheiro → o devedor usa o dinheiro para fazer transacções (consumir, pagar a renda de casa, etc.) → todo o dinheiro dessas transacções passa pelo banco, permitindo-lhe criar mais dinheiro e mais crédito → os créditos são reembolsados, cada qual segundo o seu prazo de maturidade, anulando assim a criação fictícia desses montantes.

Então e se todos os empréstimos fossem reembolsados? – não restaria praticamente nenhum dinheiro em circulação.

Este «perigo» do reembolso total, por um lado, cria a ilusão de que sem crédito a sociedade não poderia funcionar (porque actualmente se confunde sociedade com mercado capitalista); por outro lado, reforça a ideia de que os bancos são os donos do dinheiro.

No caso das dívidas soberanas (e também no caso do crédito ao consumo) é fácil perceber que todo o discurso de «economês» sobre a «sustentabilidade» da dívida, sobre o perigo fatal de sobrevir uma incapacidade de pagamento e reembolso, etc., tudo isso não passa de um enorme logro. De facto, a única coisa que interessa às instituições financeiras é que o sistema de crédito continue a funcionar, independentemente de haver ou não capacidade de reembolso.

Este facto explica um fenómeno aparentemente incongruente que acontece no preciso momento em que este texto está a ser escrito (Dezembro 2011): o FMI emprestou uma tranche de 70.000 milhões de euros a Portugal, dos quais 34.400 servirão para … pagar os juros da dívida! Da metade restante, uma boa parte servirá para … recapitalizar a banca! – ou seja, para permitir que a banca crie mais crédito, a partir do qual irá cobrar os tais juros …

Qualquer leigo na matéria terá a intuição imediata de que o reembolso integral da dívida jamais será possível. No entanto os bancos não estão verdadeiramente preocupados com o facto. A única coisa que pode fazer os bancos entrarem em pânico é um país declarar a cessação do jogo do crédito.

Diga-se de passagem que são muito raros os casos em que um país não tem dívida soberana externa. Os responsáveis políticos desses países recebem telefonemas regulares do FMI e do Banco Mundial, tentando convencê-los das «vantagens» de gerarem dívida externa, entrarem no ciclo do crédito global e «deixarem de estar isolados» [1]. Por estranho que possa parecer … nesses países a vida corre normalmente; a sociedade, a população e os negócios não se extinguem por artes mágicas; pelo contrário, é aí que tendem a registar-se elevadas taxas de sustentabilidade, tanto económica como de conservação do ambiente.

 


Notas:

[1] Por razões de lealdade, não serão aqui divulgadas as nossas fontes. Por outro lado, é possível que passados alguns anos sobre a publicação destas linhas, já não exista nenhum país que não tenha cedido à pressão do FMI e do Banco Mundial para se endividar, porque essa pressão é exercida de formas brutais nos bastidores da diplomacia política e económica.

 

 
 

Índice deste caderno

Economia para Totós
temas: manuais, sistema financeiro, banca
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