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O obscurantismo esclarecido

Luciano Silva, 18/06/2012

Em 1974, Roberto Rossellini, cineasta da geração de ouro do cinema italiano, realiza uma série para a televisão italiana de seu nome «Cartesius». Os episódios decorrem de forma tranquila e sobria pela vida do famoso filósofo francês seiscentista num registo de realização completamente desprovido dessa espectacularidade que os cânones hollywoodescos consagraram em verdade absoluta.

Tal relato desapaixonado (que em certas passagens se limita a reproduzir textualmente trechos das obras mais famosas do autor de «O Discurso do Método» e «Princípios da Filosofia»), tem tanto de didáctico como de revolucionário, numa série realizada em “contra-corrente” com a tendência das emissões televisivas italianas do principiar de uma outra revolução: a revolução cultural.

Como pano de fundo da série, temos uma época em que o ensino escolástico, um pouco por toda a Europa, continuava vivo e de boa saúde, propagando a sua abordagem jesuítica do ensino, pseudocientífica, promíscua em dados empíricos e preconceitos ideológicos.

A esta miscelânea académica conservadora do status quo, Descartes contrapõe o método: a dúvida como momento essencial na busca de um conhecimento assente em princípios sólidos, de bases dedutivas ancoradas na “sicurezza” dos números.

Este é o início de uma perspectiva civilizacional que culmina no optimismo positivista, e que ainda hoje povoa o imaginário do mundo ocidental: a fé na ciência como chave do progresso e da felicidade humanas.

Valores como os que estão no cerne da visão de Descartes são de uma perene validade, mas permitamo-nos também nós a uma dúvida metódica invertendo os dados da história: e se um novo obscurantismo surgisse precisamente ancorado nos elementos que Descartes elegeu como a pureza máxima, os números. E se, de facto, o excesso de luz equivalesse às trevas?

A história assim contada soa estranha, e talvez mesmo intelectualmente desonesta, mas algo poderemos aproveitar de semelhante raciocínio.

Ao longo dos tempos, e desde que existe algo a que podemos chamar direita política, os seus cavalos de batalha e paladinos foram mudando ao longo dos tempos. Os capatazes e sicários de hoje são, não obstante, os mesmos de ontem, independentemente da orientação ideológica do sistema que servem. É o fenómeno do poder que perpassa a orgânica própria dos sistemas. As linhas de suporte ideológico poderão ser as mais diversas: investidura divina, realismo político, teoria do mal menor, cientismo, missão histórica da classe.

Assim, hoje, o discurso do poder fundamenta-se num determinismo matemático de uma das diversas perspectivas da economia, num cinismo ideológico a que alguns chamam “pós-ideológico”, embora temamos que aquilo que encobre seja bastante antigo e conhecido de todos: o domínio, a escravatura.

Esta espraia-se numa explosão de novos processos de doutrinação pelo poder que encontra diversas ramificações na sociedade:

Perante isto, a possibilidade de mudança deve-nos conduzir a um processo de arqueologia linguística. Uma revolução deve principiar pelas palavras e privilegiar a discussão das questões de fundo – os pressupostos.

A nova esquerda deverá recuperar essa velha “tradição” dos que preferiram ser livres, mesmo quando os ventos sopravam em sentido contrário.

 

Fontes e referências

Roberto Rossellini, Cartesius, 1974 – cópia no Youtube, 360p, legendas em PT.

 
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