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A explosiva globalização do exército industrial de reserva (parte 2)

José Martins, 20/07/2011

Nosso estimado leitor Leonardo Shibata manda email para nossa redação informando que a gigante global norte-americana Hewlett-Packard (HP) também está transferindo da China para o Japão boa parte da sua produção de laptops. A HP pretende produzir 1.4 milhões de desktops e laptops na fábrica japonesa.

Na noticia indicada por Leonardo, o economista Yuichi Ishida, da Mizuho Investors Securities Co. de Tóquio, bota lenha na fogueira: a HP está se mandando para o Japão porque a “China tornou-se menos atrativa como base global de manufaturas…As despesas com pessoal na China estão crescendo cerca de 20 por cento ao ano”1. Quer dizer que os Estados Unidos não são os únicos para onde empresas globais começam a fugir dos “altos salários” da China? Também o Japão? Estamos em cima de um lance quentíssimo.

O desenrolar do atual ciclo econômico e principalmente da forma bastante original que se dará a próxima explosão global depende bastante desta anunciada falência chinesa.

Essa monumental falência do “chão de fábrica do mundo” antecipa-se nos elementos mais fundamentais da acumulação do capital. Como os salários e a produtividade. mostrados na figura abaixo – evolução na China dos salários industriais (wage manufacturing, linha vermelha da figura) e da produtividade do trabalho (labor productivity, linha cinza da figura), período 1995-2008.

[gravura desaparecida; de “Why China’s Labor Cost Advantage is About to Desappear” (Por que a vantagem do custo do trabalho da China está prestes a desaparece)], site da Business Insider. Os cálculos foram elaborados originalmente pela conceituada consultora japonesa Nomura Global Economics.]

Estamos a descobrir, graças às facilidades crescentes de comunicação pela internet, que os economistas japoneses são os que mais sabem o que se passa na economia chinesa. É impressionante a seriedade como eles tratam daquela realidade, sem a irritante ingenuidade e o besteirol dos economistas e da mídia ocidental sobre essa ridícula “nova potência econômica mundial”.

Voltemos ao que interessa. Segundo nos informa a matéria da Business Insider, a Nomura baseou-se no valor agregado por operário na indústria chinesa para estimar a produtividade do trabalho. É o método correto, utilizado também pelo Bureau of Labor Statistics (BLS) dos EUA. Como veremos no próximo boletim, a evolução da produtividade e dos salários nos EUA seguem atualmente uma trajetória totalmente oposta a que é mostrada na figura acima para a China.

Salário e produtividade

O que vemos na figura é que os salários industriais chineses estão a aumentar aceleradamente a partir de 2005 e a produtividade do trabalho a desabar. Com a aproximação da última crise periódica (2008-2009), a curva ascendente dos salários corta a curva declinante da produtividade. Isso quer dizer, no mais profundo do ser capital, que o valor da força de trabalho (que se exprime pelo salário relativo) está correspondendo a quase toda a jornada de trabalho. Nestas condições, a taxa de mais-valia (que se exprime pela taxa de produtividade) tende necessariamente a zero.

Este é o limite da acumulação do capital baseada na mais-valia absoluta, onde a expansão desmesurada da massa de mais-valia, corresponde, necessariamente, a uma rigidez absoluta da taxa de mais-valia (ou de produtividade). Isso não impede que a taxa de lucro individual da indústria chinesa continue relativamente mais elevada que nas economias dominantes do sistema, onde predomina a exploração do trabalhador sob a forma de mais-valia relativa.

Em geral, uma taxa de mais-valia elevada corresponde a uma menor taxa de lucro individual. Isso é compensado, na concorrência entre capitais, pelo mecanismo da formação dos preços de produção e da taxa geral de lucro. É através deste mecanismo que a maior parte do valor e mais-valia produzida nas economias dominadas (mais-valia absoluta) é transferida para as economias dominantes (mais-valia relativa). O sistema premia regiamente os capitalistas que mais exploram (taxa de produtividade) seus trabalhadores. Mas esse assunto tem que ser tratado separadamente ao que nos preocupa agora.

Voltemos a focar nos diferentes salários e produtividade nacionais. O movimento apresentado na figura acima aparece para o capitalista prático como uma insustentável elevação dos custos salariais na indústria chinesa, como vimos em boletins anteriores. Mas por que uma elevação dos salários de 0.57 centavos (em 2002) para 1.36 dólar (em 2008) causa todo esse reboliço na produção industrial? Mais estranho: por causa de uma diferença de menos de 80 centavos de dólar os capitalistas preferem retornar suas fábricas para os Estados Unidos, onde o custo salarial correspondente é de 33.53 dólares, como também vimos no boletim anterior.

Acontece que aqui estamos a falar do salário como custo de produção e não como rendimento (salário nominal). Temos que relacionar os salários (o wage que aparece na figura acima) com a produtividade do trabalho (a labour productivity da figura). Suponhamos que o trabalhador chinês apresente um custo salarial que equivale a apenas 2.1 por cento do custo salarial do trabalhador norte-americano. Mas, para produzir uma determinada mercadoria (um laptop da HP, por exemplo, representando aqui toda a produção industrial do país), o operário chinês produz em dez horas três laptops, enquanto o norte-americano produz, no mesmo tempo, cem unidades da mesma mercadoria. Neste exemplo, a produtividade do operário norte-americano é muitíssimo superior à do operário chinês, mais de trinta vezes.

Resultado: para o capitalista da HP o salário do operário chinês custa cerca de 77 por cento do salário que lhe custa o operário norte-americano. Descobrimos, de repente, o salário do trabalhador chinês não é tão inferior assim ao do norte-americano, como se imaginava. Complicado? Pode ser. Pelo menos no início. Mas todo mundo pode entender, pois é exatamente isso que acontece na prática. Números na mão, veremos em nosso próximo boletim como isso acontece em vários países do mundo. Até lá.

 


Notas:

1 «Hewlett-Packard to Shift Some Production of Laptops to Japan From China», in Bloomberg, 16/06/2011, www.bloomberg.com.

 

Fontes e referências

Publicado em www.revistarubra.org [sítio entretanto desaparecido].

 

 
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