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O espectáculo da política e a ascensão da ultradireita na Itália

A aparente estabilidade da Itália institucional esconde hoje uma complexa realidade social. Está em causa a sua narrativa política.

Com apenas 28 anos, Michele Sodano foi eleito deputado nacional pela região do Agrigento, na Sicília. Pertencia então ao Movimiento 5 Stelle (Movimento 5 Estrelas, ou M5S), organização que nessa época foi um fenómeno nacional peculiar, devido ao seu poder mobilizador e à diversidade de posições internas. Sodano concluiu o seu mandato em outubro de 2022, mas já não como representante do M5S. Devido a divergências com a direcção, em fevereiro de 2021 foi expulso do seu partido, juntamente com uma vintena de colegas deputados. Apesar da sua pouca idade, Sodano acumula um vasto currículo profissional. Licenciado em Economia pela Universidade de Milão e em Gestão pela de Copenhaga, trabalhou no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e em diversas empresas privadas. Actualmente dirige a Immagina, uma organização/espaço de trabalho colectivo e lugar de referência e encontro, sediada em pleno centro de Agrigento. Entrevista exclusiva com este jovem intelectual militante, pacifista convicto e referência «sem partido» para grupos de cidadãos da sua cidade.

P: Como te apresento?

Michele Sodano (MS): Pergunta difícil. Normalmente, na nossa cultura, apresentamo-nos em função daquilo que fazemos. No meu caso, neste momento da minha vida, dou prioridade às minhas actividades para a comunidade e aproveito todo o tempo que puder para mim mesmo, o que até agora nunca tinha podido fazer. Sinto-me privilegiado quando penso em todos os meus compatriotas que vivem apenas para trabalhar e acabam prisioneiros de uma lógica consumista que se pode comparar a uma grande prisão de luxo.

P: Quer dizer que a tua prioridade hoje é quase existencial?

MS: Totalmente. Vejo à minha volta muita gente deprimida, triste. Que por vezes nem sequer sabe para que vive. O seu objectivo é linear: trabalhar, reformar-se e preparar-se para aproveitar ao máximo o tempo que lhe sobra até à morte. Não percebo como se pode viver apenas para trabalhar. A vida é muito mais do que isso. Foi uma coisa que aprendi aos 17 anos, quando me confrontei com um cancro. Mudou-me completamente. Atenção: penso que devemos trabalhar, mas entendo o trabalho como uma contribuição equilibrada para o mundo que nos rodeia e não como único objectivo da nossa existência.

A pobreza atinge vastos sectores da sociedade italiana. Um sem-abrigo em pleno centro de Palero (Sicília). Foto: Sergio Ferrari

A crise da política tradicional

P: Essa reflexão é surpreendente, porque a expressas após quatro anos a viver a 120 km/hora como deputado nacional, com escritório em Roma e dezenas de voos constantes entre a capital italiana e Agrigento, a tua cidade…

MS: Foi uma experiência rica, nada negativa. Permitiu-me compreender melhor a essência de muitas coisas. Não quero parecer arrogante, mas penso que agora tenho maior lucidez para interpretar certas situações e fenómenos. Em particular, entender o enorme vazio da política institucional e tradicional. Sinto, e talvez isto possa soar provocatório, que hoje em dia a diferença na Itália entre a direita e a esquerda é fundamentalmente de narrativa, não de substância ou de conteúdos essenciais. Uma narrativa vista por muitas pessoas como um episódio do Big Brother ou um programa do Netflix, muito longe de qualquer conteúdo essencial. Isto tornou-se especialmente evidente durante os anos de governação de Berlusconi, que reduziu a quase nada os instrumentos de análise social e instalou a política como espectáculo. Isto levou a que muitas pessoas entendam que a política em geral, e o Parlamento em particular, quase não têm hoje em Itália nenhum poder real, nenhuma capacidade de representar a sua própria gente.

P: É uma afirmação muito dura. Então quem tem o poder hoje em dia?

MS: As grandes entidades financeiras, como em toda a Europa, onde manda este capitalismo neoliberal dominante. A Itália não tem defesas imunitárias contra este sistema. Conta com uma extraordinária tradição e história, que permite às pessoas pensar que vivem num bom país. Mas, na realidade, neste país as multinacionais e o capital financeiro podem fazer como quiserem e governar a seu belo gosto. Foi isto que descobri quando fui deputado. A diferença entre a Giorgia Meloni de hoje e o Partido Democrático (ex-Partido Comunista) ou o Movimento 5 Estrelas de ontem, é meramente narrativa. Na realidade, o que impulsiona hoje Meloni, em 18 meses de gestão, é o meso que fizeram no período precedente o governo de coligação de Giuseppe Conte e o de Mario Draghi. Foram eles quem abriu as portas a todas as grandes privatizações – como no sector da saúde –, as quais continuam a ser aprofundadas.

Um discurso para ganhar a batalha cultural

P: Segundo a tua análise, não parece muito dramático que hoje em dia a Itália seja governada por uma dirigente que tem a sua origem na militância neofascista…

MS: É claro que é dramático, porque Meloni e a direita apresentam propostas ideológicas que são muito negativas para o desenvolvimento da consciência humana. Porque a sua xenofobia, o seu medo do outro, a sua raiva contra aqueles que são diferentes, do ponto de vista ideológico, cria enormes danos e é muito perigosa.

P: Pensas que esses impulsos, mensagens e conceitos são irreversíveis?

MS: Não consigo avaliar o nível de reversibilidade ou irreversibilidade dos argumentos avançados pela extrema direita. A história é tese, antítese e síntese. Não sei dizer se chegaremos à antítese de todos esses conteúdos ideológicos abomináveis. O que eu constato, é um desmantelamento acelerado de tudo quanto é cultural, no sentido amplo do termo. Um desinvestimento activo no cultural, na instrução, o que causa impacto directo na consciência cidadã. Hoje percebo que muita gente tem medo do imigrante e faz sua a mensagem sem argumentos de os «imigrantes ou refugiados só vêm para roubar e aproveitar-se». Sem dúvida continua a haver um sector consciente e solidário na sociedade italiana, mas reduzido. E também um grupo maioritário que inclui sectores populares, que tem medo e cada dia mais sofre com a crise económica. Perante o risco de morrer de fome, muitos italianos das classes baixas tornam-se conservadores e abraçam acriticamente os argumentos xenófobos.

A solidariedade internacional continua a mobilizar grupos de solidariedade. Imagem numa rua de Palermo. Foto: Sergio Ferrari

«Facilitámos a chegada de Meloni»

P: Tiveste medo quando, em 2022, ganhou Hermanos de Italia, o partido de Meloni?

MS: Não, não se tratou de medo. Preocupação, sim. E, mais do que isso, uma sensação muito estranha: se Meloni chegou aqui é porque o campo progressista italiano lhe preparou o terreno.

P: Volto a perguntar, para entender bem: segundo a tua reflexão, o actual governo, mais do que mudanças profundas de programa, promove uma mudança ideológica e de narrativa política…

MS: Penso que sim. Por exemplo, chegou com argumentos e medidas para se opor às festas «rave» ou ilegalizar a carne sintética, ou multar o uso excessivo de palavras inglesas. E arrasta a opinião pública e o debate cidadão para esse tipo de temas não essenciais. Mas ao mesmo tempo perdoa os grandes empresários que têm dívidas históricas e permite que as multinacionais procedam como bem entenderem. Ao mesmo tempo, revoga o reddito di cittadinanza, um importante subsídio de 700 euros para cada família abaixo do nível de pobreza, que foi um dos maiores feitos do nosso Movimento 5 Estrelas. É terrível, porque com os seus mecanismos mediáticos Meloni e a sua gente está a impor como verdade absoluta que esse subsídio era injusto e ia para «gente que não quer trabalhar». Como se o problema não fosse a pobreza sistémica de uma grande parte da população, mas sim a falta de vontade de trabalhar. Viraram tudo do avesso e aproveitaram-se da pobreza e do desespero das pessoas. Por isso insisto em falar do grande problema da narração política dos grupos dominantes.

P: Narrativa de direita e desmantelamento de conquistas sociais…

MS: Sem dúvida. Quando em 2018 o nosso movimento alcançou grande força e chegou ao governo, sentimos que a justiça triunfava. Eu vivia na Dinamarca, onde já militava no M5S. Renunciei ao meu trabalho para regressar e participar na campanha eleitoral. Passados seis meses e apenas com 28 anos de idade, e com o perfil de um jovem com um discurso determinado e forte, fui eleito deputado com o apoio de mais de 50 % do eleitorado da minha cidade. Muitos italianos viveram isto como uma revolução extraordinária. Conseguimos legislar avanços impressionantes, como o subsídio para os mais necessitados, a obrigação de fazer contratos laborais fixos e estáveis para quem trabalhou mais de dois anos na mesma empresa. Conseguimos abolir a publicidade aos jogos de azar, num país onde o jogo continuava a aumentar devido ao desespero económico de muitas pessoas. Mas rapidamente começaram as concessões à direita e à extrema direita e fomos perdendo terreno a cada dia que passava.

Desvanece-se uma grande ilusão

P: Isso provocou a crise interna no interior do Movimento 5 Estrelas?

MS: Assim foi. Um grupo de nós, que como deputados não apoiámos a nomeação de Mario Draghi como primeiro-ministro em 2021, fomos expulsos do Movimento e formámos um grupo parlamentar independente. Draghi, na nossa avaliação, representava a elite neoliberal e globalizante europeia. Tinha sido director executivo do Banco Mundial e depois, durante oito anos, presidente do Banco Central Europeu. Atrás de Draghi alinharam-se novamente a extrema direita e a direita, juntamente com o Partido Democrático e o M5S. A sua nomeação foi uma coisa que a nossa decência política não podia aceitar.

P: Um momento muito difícil da tua carreira política?

MS: A expulsão do M5S representou um momento muito amargo da minha vida. Mas eu não podia confiar nesse governo que, como a história demonstrou, em nada beneficiaria as camadas populares. Foi triste, porque significou a ruptura com um processo participativo inigualável nas suas origens. Ao mesmo tempo, sinto essa expulsão como uma espécie de condecoração, à luz da minha própria ética. Foi uma decisão de princípio que tomei, sabendo que a nível pessoal não me beneficiaria. Fiz o que estava certo, mesmo que não fosse do meu interesse. E por isso considero-o um grande grito de liberdade. De imediato, juntamente com outros colegas com os quais criámos um grupo parlamentar, começámos a renascer para a vida parlamentar. Apresentámos propostas de lei com inteira independência e pela primeira vez fiz contribuições parlamentares que expressavam os meus próprios sentimentos e convicções, sem ter de ler um papel escrito por outra pessoa em nome do M5S. Tenho de confessar que foi uma experiência da qual me orgulho. Outros colegas, amigos e companheiros parlamentares do nosso movimento continuaram com a linha oficial. Sinto uma espécie de compaixão por eles, pois deve ser muito difícil uma pessoa sentir-se bem quando vende a alma ao diabo.

A crise de uma Europa em guerra

P: Quando rebentou a guerra da Ucrânia, o teu grupo de expulsos do M5S distanciou-se de todo o apoio militar à Ucrânia e a esse conflito em geral…

MS: É verdade. Esta guerra desvirtua todo e qualquer papel estratégico que a Europa queira desempenhar. Como continente, somos simples vendedores de armas, quando deveríamos ser uma voz forte e alternativa para a paz. E atenção: penso que deveríamos ter guardado uma distância salutar em relação tanto a (Volodimir) Zelensky como a (Vladimir) Putin. Sinto que hoje em dia a Europa, como conceito de projecto original em construção de um continente igualitário e justo, está muito debilitada.

P: Para terminar: a tua organização Immagina acaba de abrir as suas portas para apresentar Grand Hotel Coronda, um livro dos que foram presos políticos na prisão de Coronda, na Argentina, durante a ditadura militar. E nessa mesma sala realizam-se reuniões regulares de vários grupos e forças que pugnam pela paz na Palestina…

MS: Para nós, a Immagina é um espaço aberto, em construção, humano e profundamente solidário. O nosso principal objectivo é dar um pequeno sentido de eternidade a este momento que vivemos hoje e aqui. Não é um projecto finalizado nem encerrado. É um local de portas abertas. Pretendemos, especialmente os membros que integram Immagina, reapropriar-nos da vida. E isto implica dois conceitos principais: fazer comunidade e contribuir para a felicidade colectiva. Na nossa prática colectiva procuramos promover actividades e propostas a nível micro, sem esquecer o macro da nossa cidade e região. Com muita humildade e passo a passo, sem ansiedade.

Sede da Immagina em Agrigento. Foto: Immagina

A solidariedade é para nós um conceito fundamental. Combater tudo quanto hoje empobrece a nossa sociedade planetária: as fronteiras, as guerras que beneficiam umas quantas multinacionais, as polarizações entre regiões e estados. Todos somos seres humanos num mesmo e único planeta. Devemos preservar-nos mutuamente, e não combater-nos, e cuidar, todos juntos, do nosso planeta.

 

Fontes e referências

Fonte: «Política-espectáculo y la ultraderecha en ascenso», cadtm.org, 26/03/2024. Tradução: Rui Viana Pereira.

 
temas: Itália, antifascismo, neoliberalismo

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