Skip to content
Por motivos técnicos, este site teve de ser reconstruído de raiz. Algumas das suas funcionalidades e páginas anteriores perderam-se e é possível que algumas ligações tenham sido quebradas.

O envelhecimento da população: ciência ou vudu ideológico?

Rui Viana Pereira, 01/10/2022

Corre por aí uma campanha sobre o envelhecimento da população. Será o envelhecimento uma ameaça real à sobrevivência da nossa sociedade, à sustentabilidade da segurança social e ao financiamento das pensões? Ou será apenas uma trapaça neomalthusiana?

A campanha contra os idosos e reformados foi um dos cavalos de batalha da governação no tempo da ingerência directa da Troika em Portugal e teve por epítome, em 2013, um queixume do deputado do PSD Carlos Peixoto («a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha»), episódio anedótico que suscitou numerosos protestos, passou pelo crivo bafiento dos tribunais portugueses e acabou no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Passado esse ponto alto do espectáculo parlamentar, o debate sobre os idosos prosseguiu de forma mais discreta, sustentado por think tanks como a Fundação Francisco Manuel dos Santos e seu braço digital Pordata, que de mão dada com a Agência Lusa produziu vários documentos para fazer uma lavagem cerebral aos jornalistas mais desprevenidos e ao público em geral. Assim se criou o pânico do envelhecimento catastrófico da população.

Espanta-me que, artigo após artigo, tantos autores se prestem a ecoar esse grito de alarme neomalthusiano: que horror, já chegámos ao ponto de ter 182 idosos (pessoas com 65 anos ou mais) para cada 100 jovens (pessoas dos 0 a 14 anos)! Em primeiro lugar, não percebo de que chapéu saiu esta definição de jovens – porquê dos 0 aos 14 anos? O que acontece com as pessoas dos 15 aos 18 anos? Fazem parte de que grupo? Não podem entrar legalmente no mercado de trabalho, ainda não votam, mas já não são jovens? – mistério que a Pordata ainda não teve a bondade de explicar, deixando os pobres coitados no limbo. Em segundo lugar, parece-me evidente que o horror perante o rácio de 182/100 entre idosos e jovens tem um cariz moral, ou ideológico. Porque é que 182/100 haveria de ser pior ou melhor do que 100/182? Não se vislumbra nenhuma razão lógica.

Ponhamos de lado as vozes mais disparatadas e ouçamos os alarmistas mais benignos, aqueles que dizem que é formidável as pessoas não morrerem tão cedo como dantes, terem tempo para gozar a vida após 40-50 anos a trabalharem que nem uns mouros, mas, acrescentam, pelo andar da carruagem, é preocupante que no futuro não sobrem adultos suficientes para produzir a riqueza necessária para alimentar os idosos. Vá-se lá saber de que discricionário chapéu saiu este temor.

Vamos brincar às pirâmides

A maneira mais fácil de apreender o que está em causa no debate sobre o «envelhecimento» consiste em olhar para a pirâmide etária da população. Trata-se de uma representação gráfica que nos diz instantaneamente quantas pessoas têm 1 ano de idade, 2 anos … 30 anos … 85 ou mais anos.

Nas sociedades menos desenvolvidas, a representação gráfica da estrutura etária da população assume a forma aproximada de uma pirâmide, donde o seu nome. Um exemplo característico é o de Portugal na década de 1950 (gráfico 1).

Gráfico 1

O que aqui vemos é uma pirâmide etária muito semelhante à do Brasil na década de 1980 e de outros países do Terceiro Mundo: a base da pirâmide estreita rapidamente (ou seja, há muitos nascimentos, logo seguidos de elevada mortalidade infantil), assim como o topo da pirâmide (ou seja, há elevada mortalidade entre os maiores de 30-40 anos).

Como passámos deste cenário para o da pirâmide invertida ou ânfora (gráfico 2), típica das sociedades europeias actuais?

Gráfico 2

Numerosos factores contribuem para a inversão da pirâmide etária. Comecemos pelos mais óbvios: 1) introdução de um sistema público de saúde pródigo em cuidados pré-natais e pediátricos, o que reduz drasticamente a mortalidade infantil; 2) aumento generalizado dos níveis de educação e salubridade; 3) cuidados de saúde acessíveis a toda a população, permitindo um alongamento da esperança de vida; 4) entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, subtraindo-as em parte ao seu papel de parideiras profissionais; 5) generalização dos métodos de planeamento familiar e contracepção.

O efeito conjugado destes factores sugere uma alternativa ao termo «envelhecimento»: mais adequado seria talvez «uma população mais saudável e longeva», fórmula que não tem conotações pejorativas, leva em conta não só os factores quantitativos mas também os qualitativos, e retrata melhor a evolução social, política e económica.

Para invertermos a nossa pirâmide etária no espaço de 70 anos, tivemos de adquirir um conjunto de valores e paradigmas civilizacionais de que não dispúnhamos no tempo da ditadura (1933-1974). Assim, por exemplo, a introdução de critérios mais razoáveis de higiene e segurança no trabalho, juntamente com a aceitação do papel dos sindicatos na sociedade, salvou da morte precoce milhares de jovens adultos – o respeito acrescido pelo trabalho e pelo seu papel na sociedade ajudou a engordar o topo da pirâmide etária. Isto implica o seguinte: a regressão a uma pirâmide etária «de pé» significaria um regresso à barbárie.

A evolução demográfica avança à velocidade de caracol

Um aspecto crucial a ter em conta é a velocidade de reacção dos fenómenos demográficos. Não podemos esperar que as políticas públicas tenham efeitos imediatos, como se se tratasse de uma reacção química instantânea. Quando, por exemplo, introduzimos numa sociedade uma campanha de planeamento familiar, os seus efeitos só se tornam visíveis à distância de uma geração ou mais, por motivos óbvios.

Por outro lado, como sucede com tudo o mais nas sociedades humanas, um factor (no exemplo dado, o planeamento familiar) nunca actua isoladamente: interage com uma vasta teia de factores (o rendimento mediano da população, as condições de habitação, as mudanças nos paradigmas éticos, etc.); de forma que não nos podemos admirar se uma medida aplicada de forma isolada acabar por não dar os resultados previstos ou até se os contrariar.

A lentidão da evolução demográfica aconselha-nos a ser cautelosos na análise dos dados demográficos e a encará-los sob vários aspectos simultaneamente. Por um lado, há factores com efeito imediato no volume total da população (por exemplo, os cataclismos naturais, as guerras, etc.). Mas a maioria dos factores mais comuns não se limita a ter um efeito instantâneo; tem também um efeito cumulativo a longo prazo – por exemplo, as entradas de migrantes vêm somar-se aos que já cá estavam; as políticas de saúde pública vão paulatinamente prolongando a esperança média de vida. Finalmente, há factores que actuam em vaga: os seus efeitos acumulam-se a cada ano que passa, crescem, e por fim desfazem-se, como uma onda do mar.

Um exemplo ilustrativo do efeito de vaga é a actual percentagem de idosos. A chave para a analisar está na sua origem, que se situa a décadas de distância. A existência actual de muitos idosos entre os 65 e os 80 anos não depende exclusivamente das políticas de saúde pública (que de facto aumentam a esperança de vida dessa geração). A maioria dos idosos de hoje foi gerada numa época (1950-1960) em que a taxa de fecundidade era da ordem dos 3,6 (nados-vivos por mulher em idade fértil). Daí para cá, esta taxa foi caindo até chegar aos actuais 1,7. Donde resulta que a vaga actual de idosos se vai desfazer na praia, a prazo de 10 ou 20 anos. Quando todos os idosos actuais tiverem falecido, não é provável que voltem a acumular-se ao mesmo ritmo, uma vez que não estão a ser «repostos» em quantidade suficiente (em virtude da queda da taxa de fecundidade4) e por outro lado a ciência ainda não inventou a imortalidade.

Uma coisa chamada «dependência»

Os gurus do envelhecimento populacional catastrófico evocam o suposto peso excessivo dos dependentes na situação económica presente e futura do país. Mais uma vez, é preciso entender o conceito inerente, para driblar o sofisma.

Dependentes são todos os membros da sociedade que necessitam do apoio da população em idade activa, isto é, da população disponível para trabalhar.1 As crianças, os jovens em idade escolar, os estudantes universitários antes de entrarem no mercado de trabalho, as pessoas reformadas ou incapacitadas, todos eles são dependentes. Contudo, os gurus do envelhecimento catastrófico tendem a pôr a tónica nos pensionistas (a tal «peste grisalha»), e esta definição maliciosamente curta permite-lhes enviesar a leitura das tabelas estatísticas.

À medida que a pirâmide etária se inverte, o que temos à vista é não só um aumento dos dependentes idosos, mas também uma diminuição dos dependentes jovens. Isto deveria fazer qualquer pessoa de boa-fé pensar: espera aí, então se tirámos da base da pirâmide para pôr no topo, talvez o bloco que ficou no meio (os que sustentam os dependentes) se tenha mantido proporcionalmente igual. Vamos lá verificar (gráficos 3 e 4).

Gráfico 3

Em 1970, 55 % da população encontrava-se em idade activa.2 Em 1995 esse grupo constituía 61 % da população; e em 2020 representava 60 % do total da população residente. Moral da história: no espaço de meio século invertemos a pirâmide etária, sim, mas a situação, do ponto de vista dos recursos disponíveis para suportar os dependentes, não piorou; melhorou, porque há agora mais pessoas disponíveis para trabalhar do que havia há 50 anos (gráfico 4). Exactamente o oposto do que dizem os neomalthusianos/neoliberais! Só à custa de muitos malabarismos com números, índices, taxas, projecções misturadas com factos reais e outras habilidades pseudo-estatísticas é possível argumentar que estamos em pior situação (para quem não sabe: a estatística também tem uma deontologia; uns seguem-na, outros não)3.

Gráfico 4

Ao longo de quase meio século, a instalação de serviços públicos de saúde e educação causou um forte impacto na estrutura etária da população. Esse impacto levou alguns anos a evidenciar-se, por efeito da «lei da velocidade do caracol demográfico» acima mencionada, mas por fim fez-se notar: a mortalidade pré-natal, natal e infantil caiu espectacularmente, os cuidados de saúde e prevenção prolongaram a vida de muitos milhares de pessoas, a melhoria de algumas condições de trabalho poupou muita gente a uma morte precoce.

Em 2003 os «sustentadores» (chamemos assim ao grupo social não dependente) atingiram o seu valor máximo até à data: 62 % da população. A perda de 2 % no grupo social que suporta os dependentes, em 2020, não me parece assustadora. Primeiro, porque 2020-2022 são anos atípicos, por causa do covid-19 e das medidas impostas pela governação a esse propósito. Segundo, porque os não dependentes continuam a constituir a larga maioria da população. Além disso – quando nada de tão radical ou imprevisível como uma guerra, uma catástrofe natural ou medidas políticas bárbaras afecta o processo demográfico –, é regra que a evolução demográfica tenda naturalmente para a estabilização, após uma fase de transição – e se políticas bárbaras houver, como me parece ter sido o caso de algumas das medidas adoptadas pelas autoridades a coberto do covid-19, então o problema não é demográfico, mas sim político.

Gráfico 5

O mapa da evolução dos «sustentadores» (Gráfico 5) é bastante esclarecedor: após um contínuo aumento da população em idade activa ao longo de pouco mais de um quarto de século, chegámos por volta do ano 2000 a uma fase que parecia ser de estabilização, mas que a partir de 2008-2011 entra em queda. Tendo em conta a lentidão dos processos demográficos, temos de procurar as causas deste declínio não só no próprio momento, mas também várias décadas antes. Ora, nos 20 anos anteriores, o que nós encontramos é a instituição sistemática de políticas públicas neoliberais e uma considerável perda de poder de compra em relação à década de 1970, com os correspondentes reflexos nos modos de vida das populações. O que temos de investigar, por esse lado, é o efeito da degradação de certas condições materiais de vida na vontade (ou falta dela) de trazer mais crianças ao mundo e na capacidade material para as sustentar.

As causas momentâneas, por seu lado, são muito mais fáceis de examinar. O que acontece, por exemplo, quando a emigração aumenta? Obviamente, há uma fatia do bolo populacional que vai desaparecer. Ora, de toda a população residente, quem é que sai para ir trabalhar no estrangeiro? Não são as crianças nem os reformados, claro está; são os adultos em idade de trabalhar. Podemos, ainda assim, argumentar que as sociedades contemporâneas evoluíram nesse aspecto, em particular na Europa, e portanto é bem possível que, ao contrário do que acontecia com o trolha luso dos anos 1960, quando dava o salto para França, alguns emigrantes carreguem hoje consigo, além da mala, os filhos – mas não os avós; estes ficam para trás, a pesar no topo da pirâmide etária do país de origem. Em suma, temos uma situação em que aquela fatia do meio assinalada nos meus gráficos, a dos «sustentadores», corre o risco de emagrecer por efeito da emigração (com correspondente aumento proporcional do topo da pirâmide), à semelhança do que sucedeu durante a guerra colonial (1961-1974). Isso não significa que os emigrantes não continuem a enviar remessas de poupanças para casa, para proverem ao sustento dos seus entes queridos.

Os mistérios do saldo demográfico

Para que os números da estrutura etária não se tornem abstracções sem sentido, é preciso compreender a evolução do saldo demográfico. Comecemos por analisar a complexa relação entre a população residente total, os movimentos migratórios, os nascimentos e os óbitos (gráfico 6).

Gráfico 6

O saldo natural representa o número de nascimentos, subtraídos do número de óbitos; um saldo positivo significa que os nascimentos excederam as mortes, um saldo negativo significa que não houve nascimentos suficientes para compensar as mortes. O saldo migratório, por sua vez, representa o número de migrantes entrados, menos o número de saídas; um saldo migratório negativo significa que saiu mais gente do que a que entrou. A conjugação dos dois factores é variada: ambos os saldos podem subir, descer, ou evoluir em sentidos contrários.

A dificuldade de leitura deste gráfico advém do seguinte: os nascimentos e os óbitos são variáveis independentes com efeito directo e instantâneo no volume total da população residente. Mas o saldo migratório, além do seu efeito imediato, é uma variável composta e tem um efeito cumulativo que se manifesta ao longo dos anos: a entrada de migrantes (ou saída) vai somar-se às entradas dos anos anteriores. Daí que a curva da população total a dado momento «descole» da curva do saldo migratório e continue a crescer sem motivo imediato aparente.

O gráfico 7 é mais simples, porque apenas coloca em jogo o saldo natural e o total da população residente.

Gráfico 7

Olhando para os dois últimos gráficos, podemos concluir: o que salvou o volume total da população de sofrer as consequências de um pronunciado saldo natural negativo (iniciado em 2007-2008, muito antes da pandemia de covid-19), foi o influxo migratório a partir de 2017-2018 e um ligeiro aumento de natalidade a partir de 2014-2015.

Uma coisa está ausente dos gráficos, mas resulta implícita da sua leitura conjunta: quando se diminui a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde e se encerram maternidades, é natural que o saldo da população caia a pique, ou seja, que a esperança de vida diminua e o trânsito nos cemitérios entre em hora de ponta.

O papel da desregulamentação do trabalho na evolução demográfica

O que sucede quando as condições de trabalho se deterioram para além de certo limite? E quando os trabalhadores são empurrados para a reforma antecipada, a fim de darem lugar a outros mais jovens, mais mal pagos e menos reivindicativos? Primeiro, uma grande parte da força de trabalho é levada a emigrar, podendo provocar um aumento relativo dos grupos sociais dependentes. Segundo, os trabalhadores que entraram na reforma antecipada (menores de 65 anos) continuam estatisticamente a fazer parte do nosso indicador da população em idade activa, mas de facto deixaram de trabalhar e passaram a pesar na segurança social e na caixa de pensões, em vez de contribuírem para elas. É uma ironia que as correntes neoliberais, responsáveis por uma vaga de emigração, pela degradação dos serviços sociais, das caixas de pensões, dos salários e do mercado de trabalho, venham agora queixar-se dos resultados das suas próprias propostas e dos seus efeitos na demografia do país!

É preciso deixar isto muito claro:

  1. O grupo social que sustenta os membros da sociedade dependentes não diminuiu; antes pelo contrário, aumentou! E não há qualquer sinal convincente de que possa vir a desaparecer da face da Terra.

  2. Nestas condições, se tudo corresse pelo melhor, não se poria qualquer problema de sustentabilidade dos serviços colectivos de solidariedade, educação, saúde, habitação; antes pelo contrário, estaria a ser gerado um excedente nas fontes de financiamento dos cofres do Estado, dos serviços sociais e das caixas de pensões.

  3. Se houver desemprego, os efeitos benéficos da engorda da cintura da pirâmide etária serão anulados, embora isso não se reflicta nos gráficos demográficos.

  4. Se, mesmo não havendo uma taxa de desemprego anómala, a remuneração mediana do trabalho cair a pique, nada disso se reflecte directamente nas estatísticas demográficas, mas de facto é a sentença de morte por asfixia financeira dos serviços sociais, de saúde, de educação, das caixas de pensão, etc., visto que a uma massa salarial menor correspondem menos impostos e contribuições sociais. Não percamos de vista que, num sistema previdencial por repartição, o dinheiro para pagar agora a pensão dos nossos avós e dos nossos filhos depende inteiramente do salário que recebemos agora.

Em suma: do ponto de vista demográfico, nunca estivemos tão bem como estamos hoje. Contudo, as carpideiras neomalthusianas e neoliberais viram esta verdade do avesso, criam um autêntico mito à volta do envelhecimento da população e desviam a atenção dos verdadeiros problemas que nos afectam, os quais não são demográficos, mas sim políticos e laborais.

O falso problema dos limites

Há 200 anos que a questão dos limites constitui o vício central das teses malthusianas e continua presente, sob novas formas, nos debates actuais.

Michel Husson dedicou um livro inteiro 5 ao assunto, pondo a claro um princípio fundamental: o ser humano define-se por ser o único animal cuja relação com o meio ambiente e com o seu próprio meio social não depende rigidamente de limites fixos, pois ele próprio está constantemente a mudá-los. Falar em limites de recursos, no caso da humanidade, é um pouco como tentar caminhar sobre areias movediças.

É relativamente fácil deitar contas aos limites do crescimento demográfico dos lobos, porque eles ocupam um território mais ou menos bem delimitado e precisam de estar em equilíbrio demográfico com as suas presas e os seus predadores – e nem umas nem outros têm a capacidade de mudar os limites do seu meio ambiente. Isto não funciona assim com os seres humanos. Os limites da humanidade estão constantemente a mudar; não são uma constante, são uma variável móvel. Foram os seres humanos que extinguiram o mamute, o auroque, o urso ibérico e dezenas de outras espécies. E também criaram muitas outras (ou vocês pensam que existem laranjas doces na natureza «natural»?). E de cada vez que provocaram uma catástrofe (para os outros, não para eles próprios), sempre que romperam um limite (dos outros) ou o alteraram, adaptaram-se e passaram à frente, como se nada fosse. Ainda que seja deplorável a extinção de tantas e tão belas espécies, temos de reconhecer que a humanidade se adaptou às novas condições e sobreviveu na maior das calmas, sem mamutes.

Se, para os outros animais, os limites produtivos da terra são imutáveis, no caso da humanidade é ela mesma que decide a cada momento quais são os limites da produtividade agrícola, seja num sentido, seja no seu inverso: tem o engenho de aumentar a capacidade produtiva da terra para além de qualquer limite imaginável pelas gerações anteriores; da mesma forma que tem a capacidade destrutiva de esgotar em poucos anos, à custa de monoculturas intensivas, produtos químicos, etc., uma terra cultivável que alimentou milhões de pessoas ao longo de milhares de gerações sem problema algum. Os limites a que estamos sujeitos não são exclusivamente resultantes da nossa relação com a natureza, mas também das nossas opções de organização social, política e económica.

Quando os alarmistas da «peste grisalha» gritam «olha o lobo!» (sendo o lobo, por exemplo, o esgotamento dos recursos financeiros da segurança social ou das caixas de pensões), estão a levantar um problema que não existe e que por isso nunca poderá ser resolvido. «Se não tem solução, então não tem problema», como se diz em Cabo Verde. Por outras palavras, é um falso problema. Infelizmente, há outra coisa que não tem limite: a ganância do capital, que não desiste de sorver os recursos colectivos até à última gota.

Os catastrofistas ameaçam com a fome devido ao esgotamento dos recursos alimentares e afinal chega-se à conclusão de que sobra alimento – por exemplo, a colheita de cereais de 2020 bateu todos os recordes históricos. O verdadeiro problema é que a comida nunca chegou onde reina a fome.

Da mesma forma, a produtividade aparente do trabalho em Portugal, segundo a Pordata, duplicou no espaço de 25 anos (1995-2019). Isto significa que no espaço de uma geração adquirimos a capacidade de produzir o dobro do valor. Ou seja, mesmo que os «sustentadores» tivessem sido reduzidos a metade, poderíamos continuar a produzir a mesma quantidade de valor de há 25 anos. A produtividade duplicou (+100 %) e a massa de «sustentadores» caiu ligeiramente (-1,31 %). Então o que aconteceu a esse duplo valor criado e aos recursos acumulados? Foi parar ao sítio errado, como é evidente, senão ninguém estaria hoje a discutir limites demográficos e limites de recursos financeiros.

Os limites dos recursos colectivos pouco ou nada têm a ver com o envelhecimento demográfico. São, muito simplesmente, limites impostos por quem detém a posse desses recursos e o poder de os gerir. São um problema político, nada mais do que isso.

 


Post scriptum

Após a publicação deste estudo, sentimos a necessidade de comparar os dados portugueses com os de outros países. Uma breve nota sobre o assunto foi acrescentada em página à parte.

 


Notas:

1 A «população em idade activa» não é um dado da natureza; é um dado da civilização. Há 100 anos, parecia natural uma criança pré-adolescente trabalhar toda a noite numa padaria ou nas minas de carvão. Hoje, isso é visto como um crime. Os critérios que aplico neste artigo à organização dos dados disponíveis baseiam-se em larga medida nesta constatação: há um conjunto de valores civilizacionais que não podem ser ignorados no cálculo demográfico, sob pena de dizermos disparates que nada têm a ver com a realidade social.

2 Convém esclarecer uma questão de método que faz diferir os números constantes dos gráficos aqui apresentados dos que são transmitidos por outras entidades, nomeadamente a Pordata e o INE. Para estudarmos a proporção entre a população dependente e a população em idade activa, é preciso escolher um intervalo de idades. Para definir o grupo social que «sustenta» os dependentes em Portugal, escolhi o intervalo dos 19 aos 64 anos de idade, pela simples razão de que actualmente a escolaridade mínima obrigatória vai até aos 18 anos e a idade oficial para a reforma é aos 65 anos. Trata-se, bem entendido, de um critério genérico e abstracto, visto que nada me garante que toda a gente começa a trabalhar aos 19 anos, tal como nada me garante que Fulano ou Sicrano se reformaram aos 65 anos. Note-se que o Eurostat e diversas entidades europeias elegem o intervalo dos 20 aos 64 anos para definir o estrato das pessoas em idade de trabalhar.

3 Não se percebe onde foi a Pordata buscar o tal rácio entre idosos e jovens referido no início deste artigo. Seguindo o critério de idades da Pordata, encontramos, segundo os dados do INE, os rácios de 155/100 (2020), 152/100 (2019), 148/100 (2018), etc., mas nada que se pareça com o tal rácio de 182/100.

4 Taxa de fecundidade geral: Relação entre o número de nados-vivos num determinado período e o número de mulheres em idade fértil. É uma taxa geral e abstracta em que se considera fértil a idade entre os 15 e os 49 anos. Habitualmente é expressa em permilagem (nados-vivos por cada 1000 mulheres em idade fértil). Não confundir com o índice sintético de fecundidade, que é um modelo especulativo sobre a quantidade máxima de filhos que uma mulher hipotética teria ao longo de toda a sua vida.

Para se ter uma ideia do peso das crianças nascidas de mãe estrangeira em Portugal, no conjunto do saldo populacional do país: em 2010 preencheram 11 % dos nascimentos; em 2015, cerca de 8 %, segundo o Observatório das Migrações.

5 Michel Husson, Six milliards sur la terre: sommes nous trop? («Há Gente a Mais na Terra?», em vias de ser traduzido e publicado em português), La Discorde, 2000.

 

Fontes e referências

Este artigo foi originalmente publicado no jornal Setenta e Quatro, 29/09/2022. A presente versão foi aumentada, revista e editada pelo autor.

A imagem de rosto foi colhida do Arquivo Municipal de Lisboa.


Fundação Francisco Manuel dos Santos, Dinâmicas Demográficas e Envelhecimento da População Portuguesa (1950-2011), s/d.

Manuel Cordeiro, «Deputado do PSD, autor do artigo sobre a “peste grisalha”, vai receber 3 mil euros de septuagenário que lhe respondeu à letra», Aventar, 28/10/2016.

Mário Freire, «Indignado da "Peste Grisalha" ganha processo a deputado», Correio da Manhã, 28/07/2018.

Alexandra Campos, «Menos Crianças e Mais Idosos: Portugal É o País da UE que Está a Envelhecer Mais Rapidamente», Público, 21/08/2022.

António Guerreiro, «A Obsolescência Não Programada», Público, 2/09/2022.

Nações Unidas,  Department of Economic and Social Affairs Population Division, pirâmides etárias das populações mundiais.

Nações Unidas, FAO (organização da ONU para a alimentação e agricultura), «Crops and Livestock Products».

Instituto Nacional de Estatística, tabelas da população residente por grupos etários e sexo.

Pordata, tabelas de «Produtividade Aparente do Trabalho».

Observatório das Migrações.

Comité de Política Económica da UE, «Relatório sobre Envelhecimento da População 2021: Pressupostos e Metodologias de Projeção».

Eurostat, «Main Demographic and Macroeconomic Assumptions», 2019 (fichas por país).

ISEG | JBC, «O Envelhecimento da População Portuguesa», 02/01/2018.

Michel Husson, Six milliards sur la planète. Sommes-nous trop?, Editions Textuel, 2000; também disponível on-line (em vias de ser traduzido para português, com actualização dos números).

 

Páginas descendentes

 
temas: malthusianismo, Portugal, demografia

visitas (todas as línguas): 58
 

Este sítio usa cookies para funcionar melhor