ensino

O estado do ensino: austeridade em molho béchamel

«Há quem tenha medo que o país pense», publicado in «Público», 2014, s/a

A luta dos professores e investigadores científicos encontra-se ao rubro, com convocação de greves aos exames e avaliações. Está em causa a situação profissional e contratual dos bolseiros de investigação científica, precários na sua totalidade há décadas, bem como a contagem do tempo de serviço dos professores, entre outros motivos de conflito. Está em causa também a manutenção do esforço de elevação do grau de escolaridade da população portuguesa, que as sucessivas medidas de austeridade ameaçam deitar a perder.

A financiarização dos estudantes

Para alguém que não ponha os pés numa universidade há muitos anos, entrar num estabelecimento de ensino superior pode ser uma experiência chocante – em muitos casos a primeira coisa que se vê em destaque à entrada é um banco comercial, ao ponto de nos fazer pensar que talvez nos tenhamos enganado na morada e entrado num centro comercial.

As faculdades foram desde tempos imemoriais uma espécie de templo sagrado – imune à imundície exterior, dedicado à preservação do conhecimento colectivo. É certo que esse templo é também a fábrica donde saem as armas do poder ideológico (o mais determinante de todos, segundo alguns autores) e portanto a sua imunidade à imundície do poder sempre foi relativa. Mas ainda assim durante muito tempo conservou alguma independência.

Um cheque-ensino à paisana?

O Ministério da Educação decidiu entregar 12 milhões de euros adicionais aos colégios privados, que se somam assim aos 253,7 milhões inscritos no Orçamento de Estado. Isto é, um acréscimo extemporâneo de quase 5% em relação à dotação inicialmente aprovada e que, em si mesma, já contrastava com o golpe colossal desferido na escola pública, expresso na redução orçamental de 18% face à execução de 2011.