O sistema financeiro, o primeiro ditador global – 2

Na primeira parte desta análise o crédito total dirigido ao sector não financeiro é acompanhado de uma abordagem sobre uma das suas parcelas, o sector público. Nesta segunda parte iremos considerar outras duas restantes parcelas desse sector não financeiro – as famílias (incluindo entidades não lucrativas) e as empresas não financeiras. Como anteriormente, todas as grandezas são medidas em termos de percentagem do PIB para cada ano.

Segue-se um esquema do enquadramento dos vários sectores de actividade económica com os dados divulgados pelo Bank of International Settlements (BIS)

Total -  sector não financeiro

    Sector público

Famílias e empresas sem fins lucrativos

      Empresas

Privados  não financeiros    

 

No capitalismo de hoje é preciso promover uma acrescida disponibilidade de capital, uma vez que a actividade económica nunca gera o rendimento suficiente que satisfaça a acumulação sentida como necessária; daí a pulsão do crescimento económico que não existia antes de Keynes. Nesse contexto, procura-se aumentar o capital «investido», sem limitações quantitativas, especulando, obtendo favores do Estado, obtendo crédito junto do mercado financeiro (bancos, bolsa, especulação) ou fazendo a guerra se necessário.

De modo idêntico, é incutida em quantos vivem de rendimentos do trabalho uma pressão para o consumo, em grande parte de bens ou serviços inúteis ou perniciosos, a despeito da precariedade desses rendimentos. A satisfação dessa pressão obriga ao recurso do crédito, mormente de muito longo prazo, junto do sistema financeiro.

A própria gestão pública não escapa a essa pulsão, pois cada gang no poder precisa de manter a ordem e a obediência, domesticando polícias, militares e funcionários civis; como precisa de mostrar obra para ganhar as próximas eleições e agradar aos empresários que financiam a corrupção própria de governos e classes políticas, em geral.

A saída para esse dilema comum é o recurso ao endividamento, algo que se tornou obsessivo e cuja solução é apresentada pelo capital financeiro, que se coloca à parte da chamada economia «real» – sendo esta a dos capitalistas tradicionais, produtores de bens e serviços não financeiros, a dos aparelhos de Estado, encarregados da redistribuição conveniente para a punção fiscal; e ainda a das pessoas comuns, das famílias, dos hilotas, cuja mansidão é essencial para a continuidade do sistema capitalista e dos regimes políticos de «democracia» de mercado, com diferentes graus de músculo.

4. Crédito total dirigido a famílias e empresas não lucrativas ao serviço das famílias (% do PIB)

Há, no primeiro gráfico abaixo inserido, diversos tipos de evolução do crédito concedido ou, se se preferir, do grau de endividamento das famílias, nos últimos 25 anos, para os países escolhidos.

É bem clara a existência de dois períodos. O primeiro, que termina cerca de 2009, de grande expansão do peso do endividamento das famílias no PIB; e o segundo, até ao momento presente, no qual se observa uma estabilização do peso do endividamento.

O enorme crescimento da dívida veio a redundar em perda de poder de compra da população e não em melhorias na qualidade de vida

Para o conjunto dos países do euro estes créditos crescem até 2009, recuando depois até aos dias de hoje, abandonando claramente o elevado pendor ascendente verificado até à crise de meados da década. Na Grã-Bretanha, bem como nos países ibéricos, o endividamento das famílias é muito acentuado, com um grande crescimento até ao desembocar da crise financeira, decaindo daí em diante, excepto na Grã-Bretanha, que mantém estável o peso da dívida das famílias nos últimos anos.

Portugal, Espanha e Grécia apresentam grandes crescimentos do crédito às famílias, que duplicam sensivelmente em cerca de dez anos, com a Grécia num patamar mais baixo; a euforia nos países ibéricos tem um ponto máximo em 2009, decaindo até ao momento presente para valores de peso no PIB próximos dos registados vinte anos antes. No caso da Grécia o ponto máximo é atingido em 2013 mas a queda não é tão brusca como em Portugal ou Espanha. Assim, excluindo a Grã-Bretanha, há a registar uma aproximação do grau de endividamento familiar nos últimos, entre os países do euro, para indicadores próximos do conjunto.

A França mostra uma grande regularidade no crescimento do endividamento das famílias e a Itália evidencia os níveis mais baixos de endividamento familiar comparativamente ao PIB, mantendo-se num plano estável em torno dos 40 % do PIB desde 2008.

A Alemanha mostra uma clara dissemelhança face aos outros países considerados. O peso das dívidas familiares alemãs – o mais alto na viragem do século – evolui até atingir o coeficiente mais baixo, entre os países considerados, exceptuando a Itália; uma evolução muito regular, com pendor decrescente.

Sinteticamente, é nítida a redução, através do tempo, das diferenças entre o grau de endividamento das famílias para os países do euro, se se excluir a Itália.

Quando se procede a uma abordagem da situação para grandes agregados de países – zona euro e G20, por um lado, e os dois colossos mundiais, China e EUA, por outro – observa-se (ver gráfico abaixo) uma grande similitude entre os dois primeiros agregados, com indicadores próximos dos 60 % do PIB desde 2006.

Quanto aos EUA, o endividamento familiar tinha uma dimensão equiparada ao valor do PIB no período 2007-2009, no auge da crise financeira conhecida como a dos subprimes. O que se verificou no período posterior é o reflexo em negativo da euforia de assunção de dívida por famílias com recursos limitados mas aliciadas para acréscimos de dívida, tendo como contrapartida a alta valorização das suas casas. Como o imobiliário perdeu valor, ao contrário do endividamento, a execução das hipotecas conduziu a milhões de pessoas sem cobertura sanitária (no tempo da bestial incúria de Trump como gestor político da pandemia) e sem tecto, a dormir nas ruas e debaixo das pontes. O american dream parece estar a rebaptizar-se de american nightmare, perante o sorriso de Xi, que estará convencido da possibilidade de um capitalismo sem ressaca, protegido por uma nova Grande Muralha; esta, porém, não impediu a entrada dos mongóis e muito menos a pilhagem e as violências levadas a cabo pelos bárbaros (designação oficialmente dada aos europeus).

Quanto à China, o peso no PIB do endividamento das famílias sextuplica em catorze anos (2006-2020), o que é algo de extraordinário. Se bem que se trate de um país com 1300 M de pessoas (duas vezes e meia a população da UE), cabe perguntar se uma economia capitalista pode manter essa ascensão mesmo que no âmbito de um poder político tentacular e intratável; ou se o poder exportador do país, mesmo que dependente de energia e de investimentos um pouco por toda a parte, se poderá manter; que alterações surgirão da cooptação económica na área do Pacífico Ocidental (entre outras áreas de penetração), com a Parceria Económica Abrangente Regional. O recuo estratégico dos EUA na criação da Parceria Trans-Pacífica, que visava precisamente deixar a China de fora, deve ser considerado um brinde para a China. Em contrapartida, os EUA reforçaram o potencial militar na Formosa…

5. Crédito total dirigido às empresas não financeiras (% do PIB)

Entende-se aqui como crédito concedido a empresas não financeiras o proveniente de financiamento bancário, de empréstimos de sócios ou particulares, de operações na bolsa ou de entes estatais. Como se poderá observar no gráfico seguinte, há vários graus de endividamento tomando o PIB como elemento dinâmico de comparação.

A França mostra uma regularidade no crescimento do endividamento das empresas, sempre num plano muito elevado que chega a 155 % do PIB em março do ano em curso; e sem sobressaltos perante a crise financeira. Uma regularidade que, sendo verificada com altos níveis de dependência do crédito, não sofreu alterações de trajectória no período de turbulência financeira centrado em meados da década passada.

Os países ibéricos mostram um enorme aumento do endividamento comparativamente ao montante do PIB, até ao período em que se revela a crise dos seus sectores financeiros, a par com a degradação das contas públicas, o desemprego e a queda dos níveis de actividade. Há, porém um hiato de dois anos entre os dois países no que concerne ao ponto de viragem (Espanha 2010 e Portugal 2012). O enorme crescimento do endividamento não conduziu a um reforço da capacidade produtiva, nem do poder de compra da população, mas incrementou a dívida pública e privada, bem como os níveis de desemprego.

O enorme crescimento da dívida veio a redundar em perda de poder de compra da população e não em melhorias na qualidade de vida. Nesse contexto, as responsabilidades das classes políticas são imensas, sendo de espantar que a sua desastrosa actuação se não tenha conduzido a uma renovação da mesma, com alterações fundas no modelo de representação. Em Espanha, a crise – financeira, do desemprego e dos despejos – gerou uma movimentação popular (15 M) em 2011, bem como uma alteração no xadrez político, com o surgimento do Ciudadanos, do Vox e do Podemos; acrescentemos que o renovado movimento pela separação da Catalunha ou o descrédito da monarquia foram elementos que mudaram formalmente a estrutura política mas não a sua substância oligárquica e corrupta. Em Portugal manteve-se o tradicional pentapartido, com mais ou menos «tenores solitários» na AR, bem como a crise da dívida ou as burlas bancárias, com provocações políticas desviantes como o «Que Se Lixe a Troika» ou o «Geração à Rasca», criados para evitar qualquer contestação durável e efectiva que fizesse colocar em causa o funcionalismo da «esquerda» par(a)lamentar.

Em Espanha o endividamento, em termos do PIB, quase triplica num escasso período de doze anos (1998-2010), enquanto o próprio PIB apenas duplica; por outro lado, entre 2010 e 2016 a queda do endividamento corresponde a um período de estagnação do PIB. Em Portugal o endividamento duplica comparativamente ao PIB num período um pouco mais dilatado, de catorze anos, enquanto o próprio produto estagnou em 2007-2015.

A Itália e a Grécia correspondem ao mesmo perfil referido atrás para Espanha e Portugal mas com cumes muito mais baixos e espaçados no tempo, com níveis de endividamento estruturalmente mais reduzidos. Por seu turno, a Alemanha e a Grã-Bretanha ostentam grande regularidade e pesos do endividamento muito mais baixos para as empresas não financeiras, do que em França, Espanha ou Portugal.

No que respeita aos grandes agregados de países e para as duas maiores potências, os EUA constituem o agregado onde o endividamento das empresas não financeiras é mais baixo, mesmo que com uma lenta ascensão atinja os 78 % do PIB no passado mês de março.

Num contexto geral de crescimento do recurso ao crédito por parte das empresas não financeiras, há a destacar a regularidade observada para o G20 e para a Zona euro. Há um claro contraste com a China, para a qual se observa um forte pendor ascendente até 2015, passando pelas quebras de 2007/08 e 2009/11; nos últimos anos, contudo, o recurso ao crédito por parte das empresas não financeiras chinesas parece estar em contenção.


6. Estruturas e dinâmicas na distribuição do crédito/endividamento

Neste ponto pretendemos mostrar de modo sumário as mudanças quanto à principal das três grandes áreas de destinatários do crédito; e os períodos de vigência dessa posição cimeira, para cada país. Paralelamente, mostramos a repartição média do crédito concedido para cada um dos segmentos económico-sociais, também para cada um dos países considerados e para todo (ou parte) do lapso de tempo a que os dados se referem.

 

Principais destinos do crédito a instituições não financeiras

Distribuição média do crédito por sectores institucionais (%)

Famílias

Estado

Empresas

Famílias

Estado

Empresas

Alemanha

1998-2004

2005...

 

32.4

37.3

30,3

Espanha

 

1995-1999

2015...

2000-2014

26.3

32.4

41,2

França

 

 

1998...

18,8

33.4

48,0

Itália

 

1999...

 

15,5

54.0

30,5

Grécia

 

1999...

 

18.2

58,7

23,7

Portugal

 

2014...

1998-2013

27,2

34.0

38,8

Z. Euro

 

1999 e 2014

2000-2013

24.2

35,6

40,1

China

 

 

2006...

16.1

19,0

64,8

EUA

1996-2010

1995-1996

2011...

 

36.0

34,3

29,7

 

Do quadro acima extraem-se as seguintes notas quanto aos destinatários do crédito ou devedores assumidos:

  • A Alemanha mostra que essa situação recaiu nas famílias até à primeira década deste século, sendo substituídas pelo Estado, no princípio do século, na sequência das reformas Hartz. O Estado alemão em 2002 tinha uma dívida correspondente a 61,8 % do PIB que ascendeu a 70,2 % em 2005, nunca mais recuando aos níveis observados em torno da passagem do século;

    No caso dos EUA as famílias absorviam a maior parcela do endividamento até que a crise dos subprimes colocou o Estado como principal devedor a partir de 2011. Em 2007, o Estado norte-americano tinha uma dívida correspondente a 60,7 % do PIB, valor que aumenta regularmente até chegar aos 102,4 % em 2012 e a 111,1 % em março último. Em contrapartida, a dívida das famílias, que correspondia a 98,5 % do PIB em 2007, vem decrescendo desde então até aos 75,2 % em março último;

  • A França e a China apresentam sempre dados reveladores de que as empresas constituem o principal sector quanto aos níveis de endividamento, comparativamente aos outros grupos socioeconómicos, famílias e Estados. São, entre os países aqui considerados, aqueles onde é mais elevado o peso das empresas, no endividamento total.

    Na China, a preponderância do crédito obtido pelas empresas é revelador da pujança industrial e comercial do país, mormente no capítulo da exportação; e que, ao contrário do típico capitalismo de estado, a actividade económica desenvolve-se com autonomia mas obviamente sob o controlo estatal e do partido. Note-se ainda a baixa parcela de endividamento referente às famílias, muito inferior à dos países ditos ocidentais.

  • Espanha e Portugal, bem como o conjunto da Zona Euro, apresentam grosso modo, como padrão para todo o período em análise, um predomínio do endividamento gerado pelas empresas mas… desde o princípio do século até 2013-2014, quando a situação se alterou; a partir daí e como resposta à crise financeira e do imobiliário, é o Estado que se apresenta como o principal devedor, como o grande estabilizador, na sequência daquela crise que gerou queda de rendimentos, desemprego, redução do poder de compra e forte crescimento da dívida pública;

  • Na Grécia e na Itália, em todo o período, o Estado é o principal devedor, com indicadores muito acima da soma dos outros dois grupos socioeconómicos.

 

Fontes e referências: 

Artigo originalmente publicado no site do autor, Vítor Lima, em 29/11/2020. Revisão e edição de Rui Viana Pereira, segundo as normas ortográficas geralmente adoptadas neste site.

Nesta série de artigos, Vítor Lima fornece dados objectivos que ajudam a compreender o poderio da finança na nossa sociedade e a dimensão a que chegou a armadilha da dívida. Os dados fornecidos incidem sobre o mundo ocidental (EUA, zona euro, G20) e a China, mas o carácter global do negócio financeiro actual permite-nos aplicar as mesmas conclusões ao resto do mundo.
A versão aqui publicada mantém todos os dados publicados pelo autor mas foi abreviada. A versão completa pode ser livremente consultada no site do autor, em http://grazia-tanta.... e em http://grazia-tanta....
Embora não subscrevamos alguma adjectivação pessoal e política usada pelo autor, isso não diminui o enorme interesse dos artigos e dos dados neles facultados.

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