18/11/2011

Formação do valor, do dinheiro e da inflação

O valor dos bens produzidos

A maneira mais razoável de calcular o valor de cada mercadoria consiste em calcular o trabalho que essa mercadoria incorpora.

Assim, o valor de um simples prego incorpora o trabalho de minerar, de transportar o minério para a forja, de transformar o minério em lingotes de ferro, de moldar os lingotes em feitio de pregos, de transportar os pregos para a loja de ferragens, de construir um armazém para os guardar e uma loja para os vender, etc.

A invenção do dinheiro

Se vivermos rodeados de pessegueiros numa bela ilha paradisíaca, o valor dum pêssego representa o trabalho de estender o braço, colher um fruto e guardá-lo num cesto. Suponhamos que numa hora consigo apanhar 80 pêssegos. Se, por outro lado, para colher um ananás, eu tiver de atravessar a floresta, andar durante meia hora, colher o fruto e regressar, o ananás vale uma hora de trabalho; logo, um ananás valerá 80 pêssegos.

Este sistema, à falta de melhor, funcionou muito bem durante milénios; mas nem sempre é muito prático – obriga-me a ir colher 80 pêssegos cada vez que me apetecer um ananás, o que pode tirar o apetite a qualquer um.

É aqui que a invenção do dinheiro entra em cena. O dinheiro é um objecto simbólico que representa um padrão de valor e pode ser trocado por qualquer outra coisa. Em certas prisões, por exemplo, os cigarros ou a dose de heroína podem funcionar como moeda de troca. Em épocas remotas, o sal, que era um bem precioso em certas regiões, funcionava como moeda de troca e meio de pagamento de serviços prestados (em particular dos mercenários romanos) – daí a expressão salário para designar o pagamento da força de trabalho cedida a um patrão. Com o tempo acaba por se estabelecer uma escala de valores, de modo que uma banana pode valer 2 cigarros, ou 1 euro, ou um punhado de sal, ou qualquer outra coisa que faça parte do sistema de dinheiro instituído e aceite por toda a gente.

Este é um factor muito importante – que toda a gente aceite o sistema monetário em uso e um certo valor unitário do dinheiro. É preciso ainda que alguém garanta o valor unitário da moeda em uso e se responsabilize pela manutenção desse valor, que impeça a falsificação da moeda, etc. Esse papel coube, durante muitos séculos, aos poderes instituídos – ou Estado, como preferirem chamar-lhe e conforme as épocas.

O dinheiro como mercadoria

Recapitulemos: o dinheiro permite-nos comprar mercadorias, mesmo quando não temos nenhuma mercadoria para trocar. Inicialmente o dinheiro era em si mesmo um bem escasso[1] com valor próprio evidente – quer fosse gado, sal, ou placas de metal precioso – que podia ser trocada por qualquer outra coisa do mesmo valor.

Pouco a pouco, porém, o valor do dinheiro tornou-se totalmente abstracto, passou a ser meramente simbólico, graças ao pressuposto colectivamente aceite e repetido até à exaustão de que a entidade responsável pela sua emissão garante o valor unitário. Hoje, aceitamos sem pestanejar que um bocadinho de papel impresso possa valer 500 euros, ou seja um mês inteiro de trabalho de um trabalhador português mal pago – não passa pela cabeça a ninguém exigir uma vaca ou um lingote de ouro no valor equivalente à força de trabalho cedida ao patrão.

O resultado desta evolução foi que o dinheiro, embora continue a ser um bem escasso[1], uma mercadoria, se transformou num símbolo totalmente abstracto e imaterial, com os resultados que veremos a seguir.

A fábrica do dinheiro

A maior parte das pessoas pensa que o dinheiro continua a ser produzido pelo Estado, como aconteceu durante séculos. Na verdade já não é assim há bastante tempo – o dinheiro passou a ser produzido (=formado) pelos bancos, como veremos já de seguida. A ilusão a respeito da verdadeira origem do dinheiro é tão forte e tão comum, que até o empregado bancário, se lhe perguntarmos, dirá que o dinheiro vem do Estado. Isto deve-se ao simples facto de nos balancetes dos bancos não haver uma rubrica intitulada «dinheiro fabricado». Vejamos como funciona esta fábrica de dinheiro:

O banco não precisa de ter um capital próprio (=um monte de dinheiro) para exercer a sua actividade. Basta-lhe ter credibilidade moral garantida por uma instituição legitimada (o Estado, geralmente), e um certo número de crédulos depositantes que vão lá pôr o seu dinheiro. Com esse dinheiro (o dinheiro dos outros) o banco pode fazer muitos negócios – e rezar para que todos os depositantes não vão lá, no mesmo dia e à mesma hora, levantar todo o dinheiro que depositaram.

Façamos de conta que o banco abriu hoje ao público pela primeira vez e sigamos o curso dos acontecimentos:

O João, que andou a poupar dinheiro dos seus salários e o tinha guardado debaixo do colchão, vai ao novo banco e deposita 5000 euros em dinheiro vivo.

O banco passou a ter 5000 euros à sua guarda. Se espreitarmos por cima do ombro do contabilista e olharmos para o balancete, vemos que existem 5000 euros no banco.

Daí a 5 minutos o Manuel vai ao banco e pede 600 euros emprestados para comprar uma televisão. O banco, que tem efectivamente 5000 euros disponíveis (embora eles pertençam a outra pessoa), empresta-lhe os 600 euros, a 10% de juro. A seguir o Manuel pega nos 600 euros (que podem ser apenas um meio de garantia do banco, nem sequer precisam de ser dinheiro vivo), vai à loja, troca-os por uma televisão e volta feliz para casa a tempo de ver o jogo da bola. Mais tarde terá de devolver os 600 euros mais os respectivos juros, independentemente do seu clube ganhar ou perder.

Entretanto o dono da loja de televisores paga o salário ao empregado de balcão (400 euros) e vai depositar os 200 euros restantes no banco, para os ter bem guardadinhos.

Ora bem, nesta altura dos acontecimentos, se olharmos para o balancete do banco, vemos que lá estão 5000 euros (do João) + 200 euros (do dono da loja) = 5200 euros. Além disso veremos uma previsão de encaixe de 60 euros, correspondentes ao juro de empréstimo do Manuel.

O banco fabricou dinheiro que não existia. Fabricou-o carregando muito simplesmente nas teclas do computador para registar a entrada de 200 euros mais os juros pagos pelo empréstimo donde vieram esses 200 euros.

Os bancos governam a política monetária

A maior parte das pessoas acredita que o dinheiro é criado pelo Estado. Contudo, grande parte dos governos tem pouco ou nada a dizer acerca da oferta monetária do seu país. Os banqueiros assumiram o comando deste poder.

Graças ao papel que foi legalmente outorgado aos bancos na economia moderna, eles transformaram este meio de troca (o dinheiro) num modo de cobrar impostos à população. O truque consiste em conceder crédito incessantemente e recolher juros. Os banqueiros recolhem juros sobre quase todo o dinheiro do mundo.

Em países como Portugal, entre os bancos, as empresas e o Estado existem numerosos acordos que protegem a actividade bancária, tornando os serviços bancários tão obrigatórios para o cidadão comum como os impostos – por exemplo, a esmagadora maioria dos trabalhadores é obrigada a ter uma conta bancária, se quiser receber o seu salário; caso contrário não terá acesso a esse bem escasso que dá pelo nome de dinheiro. Assim, todo o valor da força de trabalho, juntamente com todo o valor dos bens produzidos, logo à partida vai para a conta no banco, ainda antes de ter entrado em circulação – antes de um trabalhador gastar um tostão do seu salário, já esse valor foi teclado nas contas do banco, sem necessitar sequer da existência de moeda metálica ou de papel-moeda, e provavelmente já está a ser emprestado a alguém ainda antes de o trabalhador ter oportunidade de pagar o seu primeiro café desse mês.

Hoje a grande maioria de todo o dinheiro existe apenas como números em contas bancárias. De acordo com a lei, estes números virtuais têm o mesmo valor do papel-moeda e das moedas metálicas.

Uma pescadinha de rabo na boca

Como os bancos utilizam dinheiro alheio para credibilizar os empréstimos que fazem, teoricamente a quantidade de dinheiro que podem fabricar é limitada pela quantidade de dinheiro que foi depositada no banco. Na prática, cerca de 90% de todo o dinheiro depositado no banco é utilizado como suporte para a criação de novo dinheiro.

No entanto, o dinheiro depositado no banco (por exemplo, o dinheiro que a empresa deposita para pagar os salários) foi ele próprio extraído do chapéu do banqueiro (através de créditos à empresa, por exemplo). Assim, o «novo dinheiro criado a partir do nada» tem a sua origem em «dinheiro criado a partir do nada».

Este sistema pode parecer terrivelmente fraudulento, entrópico e impossível de manter eternamente. No entanto, lembram-se do que dissemos no início?, a condição necessária para que um sistema monetário se mantenha exige apenas credibilidade, isto é, por outras palavras, que toda a gente mantenha a fé no sistema. Enquanto houver crença no sistema, o crédito bancário poderá sobreviver, extorquir uma renda (juros) a toda a população e fabricar dinheiro à vontade e a partir do nada.

O carrossel dos empréstimos e os juros

Recapitulemos:

  • O banco empresta dinheiro
  • o devedor gasta esse dinheiro
  • o receptor do dinheiro gasto deposita-o no banco
  • graças a esse depósito, o banco pode emprestar mais dinheiro
  • de cada vez que o banco empresta dinheiro, recolhe juros.

Temos aqui um problema: os juros não faziam parte da equação inicial das trocas. Não é possível disfarçar este facto simples: de cada vez que o banco recolhe juros, está descaradamente a inventar dinheiro que não existia, que não vem de lado nenhum. Por outras palavras, a quantidade de dinheiro em circulação aumentou.

Se houvesse apenas um banco em cada país, seria muito óbvio que o banco estava a criar dinheiro a partir do nada, graças ao carrossel dos empréstimos. No entanto cada país tem muitos bancos, e no mundo inteiro existem mais bancos, e todos eles emprestam dinheiro uns aos outros. De modo que as consequências do carrossel são extremamente difíceis de discernir à vista desarmada, tudo isto se transforma num prato de esparguete difícil de destrinçar.

Os bancos centrais e a reserva obrigatória

Não é difícil intuir que se não for posto um limite ao carrossel dos empréstimos, o sistema poderá entrar em colapso ao fim de poucas semanas – quanto mais depressa funcionar a máquina de fabricar o dinheiro, mais depressa o dinheiro deixará de ser um bem escasso, passando a valer nada. Por isso foram criadas leis que obrigam os bancos a manter uma reserva de segurança. A justificação fornecida ao público para esta lei é a necessidade de dar garantias aos depositantes de que sempre haverá algum dinheiro vivo que eles possam ir levantar.

A reserva obrigatória é calculada em função do total de dinheiro depositado no banco (este valor mínimo pode variar de país para país). Vocês hão-de estar a pensar: «Uf! estamos salvos, o sistema está seguro!»

Antes de deitarem foguetes vamos olhar com mais atenção para este sistema:

Suponhamos que eu fui ao Banco AA depositar 1100 euros em dinheiro vivo. Suponhamos que a reserva mínima de garantia no Banco Central do meu país é de 1:9.

O Banco AA fica com 100 para despesas e deposita 1000 no Banco Central – pode emprestar 9*1000 = 9000.
O João pede 9000 emprestados ao Banco AA e vai às compras.
A loja dos candeeiros recebe 1000 do João e deposita-os no Banco BB.
O Banco BB guarda 100 para despesas e deposita 900 no Banco Central – pode emprestar 8100.
etc.

Não há limite para a quantidade de dinheiro que os bancos podem criar, desde que continuem a emprestar dinheiro uns aos outros. Fornecer crédito significa criar dinheiro.

[Nota: a mesma coisa se passa entre países; por isso os EUA preferem ter mais dinheiro a circular fora do país do que dentro. A quantidade de dólares existentes dentro dos EUA é absolutamente insignificante quando comparada com o total de dólares a circular pelo mundo, como veremos noutro capítulo.]

A inflação

Temos portanto uma situação em que está constantemente a ser criado mais dinheiro a partir do dinheiro existente.

Vamos pôr de lado quaisquer considerações de carácter moral. Olhemos para a questão objectivamente. Se cada vez há mais dinheiro, isso não quererá dizer que estamos todos a ficar mais ricos a cada instante que passa?

Para responder a esta pergunta temos de voltar à Terra, assentar os pés no chão, fazer um esforço de memória e recordar que o dinheiro, além de servir para criar mais dinheiro, continua (pela sua própria natureza e génese) a servir para trocar por mercadorias. O dinheiro é um padrão de valor que pode ser trocado por valor equivalente em mercadorias. Foi assim que tudo começou, lembram-se?

Para criarmos qualquer tipo de padrão (um metro, um quilograma, etc.), temos de encontrar uma constante (=padrão) que nos permita comparar qualquer quantidade com a quantidade-padrão. Esta constante não pode variar em circunstância alguma, senão nada faria sentido – se o comprimento-padrão de um metro variasse constantemente, hoje a distância de Lisboa ao Porto seria de 400km, amanhã de 1600km, e assim por diante. No caso do dinheiro, já que ele representa o valor de qualquer mercadoria e pode trocar de lugar com ela, é óbvia a maneira de encontrar um padrão seguro: o valor da quantidade total de mercadorias tem de ser igual ao valor da quantidade total de dinheiro – pelo menos enquanto quisermos continuar a usar a matemática para fazer contas ao dinheiro.

Ora a quantidade de mercadorias não variou [na realidade a quantidade total de mercadorias disponíveis no mercado vai variando, mas a um ritmo desprezável para os nossos cálculos, porque essa variação geralmente é muitíssimo mais lenta que o ritmo da formação do dinheiro]. Então: a quantidade de mercadorias manteve-se; a quantidade de dinheiro aumentou; mas o valor total de todo o dinheiro que existe não pode variar, tem de manter-se igual ao valor total de todas as mercadorias que existem. Logo, o valor unitário do dinheiro tem de baixar, para manter a nossa constante-padrão. O dinheiro passa a valer menos. Ou, se preferem: o preço das coisas aumenta.

Uma forma simples de visualizar esta equação consiste em imaginarmos uma balança com dois pratos. Num dos pratos pomos todas as mercadorias existentes; no outro pomos um peso equivalente em dinheiro; os dois pratos matêm-se em rigoroso equilíbrio – é por isso que mantemos a confiança no sistema, por sabermos que o «peso» (=valor) do dinheiro equivale ao das mercadorias, e portanto podemos trocá-los entre si sem desequilibrarmos a balança. Se pusermos mais dinheiro no prato da balança, o sistema fica completamente desequilibrado – a não ser que o «peso» de cada unidade de dinheiro passe a ser menor.

Conclusão: sempre que um banqueiro fornece crédito, cria mais dinheiro; quanto mais dinheiro ele cria, mais dinheiro ganha; mas o dinheiro que eu tenho no bolso, ou o salário que recebo ao fim do mês, passam a valer menos, na proporção do dinheiro que foi criado.

Temos aqui um princípio semelhante ao princípio universal da conservação da matéria e da energia; se pomos de um lado temos de tirar do outro, e vice-versa – ou seja, se permitimos que o banqueiro fabrique mais dinheiro para si próprio, teremos de tirá-lo do bolso de alguém, duma forma ou de outra. Se calhar os entusiastas da economia, especialmente da economia neoliberal, pensavam que seria possível a economia escapar às leis gerais do universo e criar um universo à parte, sujeito a outras leis. Desgraçadamente para nós, não-banqueiros, isso não é possível.

À perda de valor de cada unidade de dinheiro chamamos inflação.

Este mecanismo não abona a imagem dos banqueiros, como é evidente. Por isso mesmo foram inventadas outras definições de inflação, todas elas bastante artificiosas, para disfarçar este mecanismo simples de enriquecimento indecoroso dos banqueiros e empobrecimento dos trabalhadores e consumidores, como veremos noutro capítulo.

 


[1] bem escasso – designa-se por bem escasso um bem (objecto, mercadoria, etc.) cuja quantidade é teoricamente limitada e que para ser obtido necessita de incorporar trabalho; e, já agora, que pode interessar a alguém, senão não seria um bem. O ar que respiramos interessa-nos a todos mas não é um bem escasso (até ver...); está em toda a parte, não necessita de incorporar trabalho para ser usufruído. As botijas de oxigénio dos hospitais e dos mergulhadores, pelo contrário, são um bem escasso – o seu stock é limitado, incorporam uma elevada quantidade de trabalho e podem ser desesperadamente necessárias em determinadas situações. O dinheiro tem de ser um bem escasso, senão não poderia representar valor. Por isso, se o fabricarmos a partir do nada e sem parar, o seu valor tenderá para zero.

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