20/07/2014

Hecatombe BES

A propósito da hecatombe do Banco Espírito Santo (BES) e do grupo económico Espírito Santo (GES), o primeiro-ministro português jura a pés juntos que os portugueses não terão de pagar perdas provocadas pelas falcatruas e imprudências dos banqueiros; o governador do banco central português confirma; os comissários e técnicos da União Europeia fazem fila para manifestar o seu acordo.
Todos eles mentem, porque a maioria da população (os de baixo) na realidade já começou a pagar as dívidas privadas dos grupos económicos em dificuldades.

 

No dia 10 de Julho de 2014, The Wall Street Journal anunciava o desastre: «Global markets tumble amid fears over portuguese lender»1 («o medo ao prestamista português provoca uma queda dos mercados globais»). O prestamista visado era o Banco Espírito Santo (BES)2; o devedor em causa era o próprio grupo Espírito Santo (GES), de que o BES faz parte – uma situação que leva um colunista do Financial Times a qualificar as relações entre as empresas do GES como «terrivelmente incestuosas». As consequências fazem-se sentir na bolsa de Lisboa, na de Nova Iorque, na dívida pública portuguesa e na grega, …

Estrutura simplificada do Grupo Espírito Santo

estrutura do grupo Espírito Santo

Contudo, as dívidas do GES são apenas a ponta do icebergue, pois tudo isto se passa num contexto globalizado: cada elemento da cadeia de empresas implicadas na hecatombe faz parte de outra cadeia mais complexa e global; o próprio BES é detido apenas em 25% pelo grupo Espírito Santo e em cerca de 73 % por sociedades internacionais.

O dominó das dívidas financeiras cai sempre para cima dos trabalhadores

O BES emprestou 200 milhões à Rioforte e outros 780 milhões à ESFGA, duas holdings do GES; a PT emprestou 897 milhões de euros à Rioforte; e agora os devedores declaram-se incapazes de pagar as dívidas. O BES, por seu turno, recapitalizou-se em Setembro de 2011 com um empréstimo de 300 milhões vindo da China3 – e assim por diante. Para abrilhantar o desastre, some-se a tudo isto qualquer coisa como 2.000 milhões investimentos malparados em Angola, e sabe-se lá mais o quê.

A teia de ligações entre empresas

teia de grupos económicos em Portugal

Poder-se-ia dizer que todos esses problemas apenas dizem respeito aos investidores privados – eles que se amanhem – e que o cidadão comum nada tem a ver com o assunto. Infelizmente não é assim tão simples: por exemplo, o Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social detém 2,28% do capital da PT, cujas acções caíram drasticamente. Apesar disso, os poderes públicos continuam a afirmar que a população não terá de pagar um cêntimo. É claro, se entendermos por «povo» os de cima (os banqueiros), então é verdade o que o primeiro-ministro afirma; mas se estivermos a pensar nos de baixo (os trabalhadores, o pequeno comércio, os reformados), não restam dúvidas de que terão de pagar a totalidade das perdas, seja por via directa, seja por via indirecta.

As formas directas de sacar dinheiro aos de baixo passam, por exemplo, pelo saque dos fundos dos trabalhadores (constituídos através das quotizações da segurança social), investidos nos grupos económicos e financeiros que dominam a economia e a governação.

Quanto às formas indirectas de obrigar os trabalhadores a pagar os desastres financeiros privados, são inúmeras: sob o pretexto das dificuldades das empresas afectadas pela crise e sob a chantagem do encerramento e do despedimento colectivo, lá vêm as reduções salariais (absolutas e relativas), os cortes nas pensões, os despedimentos selectivos, as reformas compulsivas, o reforço da precarização. Este carrossel, cuja música conhecemos de ginjeira há anos, irá agravar-se por efeito da nova crise, que já deu sinais de vida não só em Portugal, mas também noutros países da Europa periférica.

A um problema global deve ser dada uma resposta coordenada

A teia de interesses cruzados entre as empresas, os grupos económicos e a casta política é duma densidade imperscrutável. Esta teia, como já foi referido, galga fronteiras, cruzando interesses económicos espalhados por todo o mundo. Isto implica que nenhuma proposta de solução isolada é viável a longo prazo – as propostas nacionalistas são um disparate inadequado à realidade económica e social contemporânea; não adianta tentar cortar apenas uma das perninhas do polvo.

O problema da dívida pública e das medidas de austeridade que afectam a generalidade dos povos da periferia europeia só encontrará uma solução eficaz e definitiva no quadro duma coordenação entre esses povos – se possível com inclusão dos países de ambos os lados do Mediterrâneo.

Recentemente assistimos a um salto qualitativo: a presença significativa no parlamento europeu de novas forças políticas como o Syriza e o Podemos, entre outras correntes conscientes da necessidade de coordenação internacional contra a austeridade e a dívida, traz uma nova esperança.

Quando se diz que a presença daquelas forças políticas nas instituições da UE traz uma nova esperança, é necessário que nos entendamos bem: não podemos esperar que a presença de uns quantos deputados no parlamento europeu (ou em qualquer outro parlamento, diga-se de passagem) possa só por si mudar a sociedade, travar o neoliberalismo e a austeridade, disciplinar as práticas bancárias e financeiras, socializar a banca e colocá-la sob controle cidadão, repudiar as dívidas ilegítimas, etc. Nada disso – o que a presença conjunta das novas correntes políticas nos centros de poder da Europa favorece é a criação de um centro nevrálgico e de uma nova dinâmica de comunicação, coordenação e aprendizagem mútua entre movimentos sociais nos vários países. Este salto qualitativo pode ajudar a mudar o curso dos acontecimentos.

 


1 The Wall Street Journal, 10-07-2014, http://online.wsj.com/articles/markets-tumble-on-european-bank-woes-1404979086.

2 Sobre a dimensão nacional do BES:

«BES has major holdings in a number of banks and companies, among which the following are of particular importance: Banco Internacional de Crédito, based in Lisbon, whose core activities are commercial, mortgage and private banking; Companhia de Seguros Tranquilidade, the largest insurance company operating in Portugal; Besleasing, also the top leasing company in the country; BESI, a leading investment Bank; ESAF, a mutual and fund holding company, dedicated to securities and property, in Portugal and abroad […] [other companies hold by BES:] factoring, retail and consumer credit, credit cards, brokerage, information systems and EDP, medical care and security services are also part of the BES Group. BES enjoys the highest rating among Portuguese banks, namely those granted by Standard & Poor's and Moody's: A and A2, for medium and long term; A1 and P1 for short term, respectively».

Dimensão internacional do BES: «BES currently operates a fully-owned bank in Spain [...] It holds a 20% stake in Société Bancaire de Paris (France) along with branches in Lausanne, London, Nassau, Madeira Offshore, Madrid and New York. [...] At the end of 1995 a new subsidiary bank was established in Macao [...] By the end of 1997, an important stake was taken up in Banco Boavista Inter-Atlântico, a universal and commercial Brazilian banking institution [...] Stakes are also held in Kredyt Bank PBI, SA, Poland and Société Bancaire de Paris.»

Ver artigo completo em http://www.portugaloffer.com/bes/index.html.

3 Jornal Económico, 30-09-2011, http://economico.sap.... «O empréstimo concedido pelo maior banco chinês de investimento externo destina-se a reforçar a capacidade de financiamento do BES. A operação surge no seguimento de uma parceria iniciada em 2007 e que culminou num memorando de entendimento assinado em Junho [2011].»

Fontes e referências: 

Jornal I-online, «BES. Europa treme de medo e juros das dívidas do sul disparam», 11-07-2014, http://www.ionline.p...

Sobre os gestores do GES e os grupos «donos de Portugal»:

Ricardo Salgado: http://www.rtp.pt/no...
Vítor Gaspar e o grupo BES: http://observador.pt...

Sobre a influência dos banqueiros no pedido de empréstimo da Troika:

http://www.publico.p...
Entrevista a Ricardo Salgado, «Portugal precisa urgentemente de um empréstimo», 5-04-2011, http://expresso.sapo...
«Troika: empréstimo de 78 mil milhões de euros», 3-05-2011, http://www.dn.pt/ini...
«Quase metade do empréstimo da troika é para juros e comissões», 25-11-2011, http://www.jn.pt/Pag...

Sobre os empréstimos do BES e da PT:

http://economico.sap...

Entrevista a Maria Luís: "Os banqueiros não gerem o país, quem gere o país é o governo", 27-06-2014, http://www.dinheirov...

«Fundo de reserva da Segurança Social perde 27 milhões de euros com crise no Grupo Espírito Santo», 17-07-2014, http://www.esquerda....

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