26/10/2012

O povo grego encontra-se hoje no epicentro da crise do capitalismo

autores: 

Discurso de Eric Toussaint no festival da juventude da Syriza em Atenas,
em 6 de Outubro de 2012

Mais de 3000 pessoas estiveram presentes para ouvir quatro conferencistas, pela seguinte ordem: Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda (Portugal), Lisardo Fernandez, dirigente do sindicato dos mineiros (Astúrias, Espanha), Alexis Tsipras, presidente da SYRIZA (Grécia), Eric Toussaint, presidente do CADTM (Bélgica, www.cadtm.org ).
Discurso de Eric Toussaint:

Estamos a viver e a atravessar uma das piores crises mundiais do sistema capitalista. Mas o capitalismo não vai morrer de morte natural. As crises fazem parte do metabolismo do capitalismo. Só a acção consciente dos povos pode destruir e fazer ultrapassar o capitalismo e abrir caminho ao socialismo democrático.

O povo grego encontra-se agora no epicentro da crise do capitalismo. A forma como o povo grego, através das mobilizações, for capaz de enfrentar e de dar resposta à crise capitalista será determinante para que se encontre uma solução, a nível internacional. Vocês estão no epicentro da crise e da solução para a crise.

Há sete anos, o epicentro da alternativa ao capitalismo estava na América do Sul: na Venezuela, no Equador, na Bolívia, quando Hugo Chávez, dizia, em 2005, que já não acreditava na terceira via, que considerava que era preciso, a nível mundial, um socialismo do século XXI. Hoje, o epicentro das alternativas - que ainda não viram a luz do dia, como indica o título desta conferência - mudou-se para a Europa.

Os povos da Venezuela, do Equador e da Bolívia têm mostrado, a nível mundial, que é perfeitamente possível resistir à ofensiva capitalista, que é perfeitamente possível implementar uma política de redistribuição de riqueza e socializar as grandes empresas estratégicas. É absolutamente possível e necessário recuperar o controlo dos bens comuns, tal como os recursos naturais. Eles fizeram-no; estão ainda no governo e espera-se que, amanhã, 7 de outubro, nas eleições presidenciais, Chávez seja reeleito presidente da Venezuela.

Vivemos, hoje, na Europa, um momento histórico. Nunca, nos últimos 65 anos, nos países europeus, se tinha presenciado uma ofensiva tão brutal. Em toda a Europa, não só na Grécia, mas em todos os países europeus, utiliza-se o pretexto da dívida, para implementar políticas de austeridade fiscal. Na Grécia, vêmos claramente os resultados da versão mais brutal, mas a Grécia é apenas o começo de uma ofensiva que afecta já os povos de Portugal, da Irlanda, de Espanha e de outros países europeus.

É, por isso, que devemos lutar e unificar os nossos esforços para suspender o pagamento da dívida ilegítima e repudiá-la. Esse é nosso objectivo fundamental para todo o continente.

O povo grego deu uma grande lição à Europa, nos últimos três anos. No começo, resistiu, organizou-se e participou em, pelo menos, catorze greves gerais. Mas o mais importante, e apesar da derrota eleitoral, é que o povo grego votou massivamente na proposta radical apresentada pela Syriza. É uma lição fundamental para o resto da Europa, onde, com frequência, a esquerda é muito tímida. O exemplo grego simboliza a força de uma esquerda unida, uma esquerda que mobiliza, que fez uma coligação com 12 organizações políticas diferentes e procura unificá-las no seio da Syriza. O exemplo grego mostra que quando um partido ou coligação diz «Não», diz que «se chegarmos ao governo vamos desobedecer à Troika» e uma atitude corajosa e combativa como esta pode obter o apoio popular. Essa é uma lição para todos e para todas.

A redução da dívida grega, em Março de 2012, é uma fraude e uma armadilha. É muito importante mostrar, à opinião pública internacional, que a dívida exigida pela Troika, que representa hoje 150 mil milhões de euros (a dívida da Grécia com aTroika) é dívida ilegítima e que deve ser anulada pela ação do povo através da desobediência de um governo popular.

Eles tentam convencer-vos de que a suspensão do reembolso da dívida levará o país ao caos. Mas, nos últimos dez anos, três exemplos contrariam totalmente a afirmação de que não há salvação possível para além do pagamento da dívida. A Argentina suspendeu o pagamento da dívida, em dezembro de 2001, num montante de 90 mil milhões de dólares, e a Argentina tem crescido entre 4 e 7% ao ano, desde 2003. O Equador suspendeu o pagamento da dívida comercial, entre novembro de 2008 e junho de 2009, e impôs aos seus credores uma redução de dívida de 65%. O Equador está muito bem a nível económico.

A Islândia, modelo do neoliberalismo, passou por grandes dificuldades, em setembro de 2008, com a bancarrota do sistema bancário. A Islândia recusou, então, pagar a dívida dos bancos ao Reino Unido e à Holanda. A Islândia está muito bem com um crescimento económico de 3% ao ano.

É claro que a Grécia não é a Islândia, nem a Argentina, nem o Equador. São realidades distintas, mas a lição a tirar é a seguinte: aqui ou lá, se os governos conseguirem o apoio popular e decidirem suspender o pagamento da dívida ilegítima, podem melhorar as condições de vida do povo.

É evidente que a anulação da dívida é necessária, mas não é suficiente. Anular a dívida da Grécia, sem mudar o resto da economia e o injusto modelo económico-social, não permitirá à Grécia construir uma alternativa favorável ao povo. A anulação e a suspensão do pagamento da dívida são necessárias, mas a socialização do sistema bancário, um sistema fiscal que obrigue os ricos a pagarem mais impostos e a redução de impostos sobre os bens e serviços de primeira necessidade fazem obrigatoriamente parte do modelo alternativo que é necessário instituir.

 

Queridos amigos e amigas, a História não está escrita. Há muitos cenários em aberto perante nós. Podemos continuar na situação caótica actual em que há, cada vez mais, autoritarismo, com governos ao serviço dos bancos. Esta situação pode ainda durar uns anos. É possível um cenário ainda pior: um cenário autoritário, neofascista. É um perigo grave e uma ameaça real. Mas existem dois outros cenários: sob pressão popular, pode surgir um capitalismo regulado, um capitalismo tipo anos cinquenta-sessenta, um capitalismo de tipo keynesiano. Essa é uma possibilidade. Mas se nós estamos aqui reunidos, esta tarde, é porque pensamos que não vale a pena limitar a nossa luta a disciplinar o capitalismo. Nós queremos ultrapassar o capitalismo. Nós queremos um socialismo democrático, autogestionário do séc. XXI. Viva o socialismo internacional. Viva o socialismo autogestionário. Viva a Syriza. Viva o povo grego. Viva a resistência dos povos. Viva a revolução, camaradas!”

Fontes e referências: 

Tradução: Maria da Liberdade.

Secção: 
Temas: 
Subscribe to Syndicate