19/10/2012

Nova fase política na Grécia - crescimento da extrema direita

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O Aurora Dourada, partido da extrema direita grega, ganhou 18 lugares no parlamento nas eleições de Junho de 2012 com uma campanha abertamente hostil aos imigrantes. Multiplicam-se agora as alegações de que parte da polícia grega apoia este partido neonazi.

«Já está em curso uma guerra civil», diz Ilias Panagiotaros. A loja deste dirigente do partido de extrema direita não vai ter mãos a medir. Vende camuflados, equipamento da polícia de intervenção, máscaras e camisas de hooligan. Nas paredes vêem-se cartazes a celebrar a última guerra civil grega, que terminou em 1949.

«A sociedade civil grega está pronta – ainda que as pessoas não queiram – para luta: um novo tipo de guerra civil», diz ele. «De um lado haverá nacionalistas como nós e gregos que querem que a Grécia volte a ser como dantes; do outro lado os imigrantes ilegais, os anarquistas e todos aqueles que destruíram Atenas diversas vezes.»

Ouvem-se muitos comentários destes na Grécia, mas Ilias Panagiotaros não é uma figura qualquer: é membro do Parlamento grego, um dos 18 deputados eleitos pelo Aurora Dourada nas eleições de Junho.

Ataque a um teatro

Para o sr. Panagiotaros a guerra civil não é uma coisa teórica. Na semana passada liderou uma manifestação que tirou de cena Corpus Christi, de Terence McNally. Enquanto a polícia assistia impávida, Panagiotaros foi filmado a gritar insultos racistas e homofóbicos ao encenador, enquanto os actores se refugiavam dentro do Teatro Chyterio.

As filmagens transmitidas no Youtube mostram uma chuva de pedras a cair sobre o auditório aberto do teatro. Mostram também o director do teatro a fazer um apelo desesperado ao chefe da polícia, pedindo protecção contra os atacantes, que começaram a espancar os jornalistas à porta do teatro.

Outras filmagens mostram o deputado Christos Pappas, do Aurora Dourada, a «desprender» da carrinha da polícia um dos manifestantes, perante a passividade da polícia.

Houve quem telefonasse ao ministro do Interior, que ordenou ao procurador-geral que acudisse à cena, mas nenhuma ajuda foi prestada.

«Isto foi a nossa Kristallnacht», disse o encenador Laertis Vassiliou. «As pessoas voltaram para casa com ossos partidos. Agora eles telefonam-me diariamente, a dizer: tens os dias contados.» De olhos vermelhos e a tremer, acrescenta: «O Aurora Dourada telefonou à minha mãe. Dizem: vamos enviar-lhe uma caixa com o seu filho cortado às postas. Gostava que alguém me dissesse se estou a viver numa democracia ou numa ditadura.»

Alarme crescente

O ataque ao Corpus Christi foi um momento de viragem na política grega.

Embora o Aurora Dourada já antes praticasse ataques frequentes aos imigrantes, ao longo do último mês reforçou a sua presença nas ruas. Lançou uma rusga no mercado da Rua Rafina, onde os seus militantes fardados exigiram aos feirantes imigrantes que mostrassem as suas licenças e destruíram punitivamente a propriedade dos que não apresentaram a licença.

Agora, com o ataque ao grupo de teatro, o pânico alastra a sectores da sociedade que ainda não tinham sido afectados pelas acções do partido.

Perguntei ao sr. Panagiotaros: que direito tem um partido parlamentar de criar uma milícia fardada que executa de forma violenta a lei, inspeccionando documentos pessoais e fazendo razias nos mercados públicos? Ele explica: «Foi apenas um incidente, que foi filmado, e o problema ficou resolvido – em todos os mercados ao ar livre da Grécia os imigrantes ilegais desapareceram. Houve uns empurrões e uns sopapos – nada de extraordinário, nada de especial. O certo é que agora basta um telefonema a avisar que o Aurora Dourada vai passar pelo sítio tal e tal, para a polícia aparecer. Isto significa que a marca do Aurora Dourada se tornou muito eficaz.»

O nosso entrevistado confirma que a estratégia do partido consiste em forçar a acção policial contra os imigrantes e em reclamar o seu direito de fazer detenções civis contra quem é suspeito de criminalidade. «É como a moda – o nosso nome tornou-se muito popular e cada vez há mais pessoas a seguirem-nos. O nosso nome tornou-se sinónimo de ordem, lei e ordem e eficácia.»

Mas isso não provoca medo nos imigrantes perfeitamente legais?, pergunto eu. «Não existem imigrantes legais na Grécia, nem um», responde o sr. Panagiotaros.

De repente, o Aurora Dourada está em toda a parte. Das 8 sedes locais que tinha durante as eleições, passou para 60 em todo o país. As sondagens colocam-no sistematicamente em terceiro lugar, com 12%.

Os deputados do Aurora Dourada ameaçaram «escorraçar os filhos dos imigrantes dos jardins infantis» e requisitaram uma lista de jardins infantis com o número de imigrantes. O ministro da Educação cedeu-lhes a lista gentilmente.

O apoio à extrema direita dentro da polícia

As arruaças do Aurora Dourada obedecem a um padrão consistente. Visam imigrantes, militantes de esquerda, advogados que defendem os imigrantes e, como se viu no caso do assalto ao teatro, os homossexuais. A polícia limita-se a assistir.

Em Atenas refere-se mesmo que a polícia comunicou ao Aurora Dourada casos em que as pessoas se queixaram de problemas com vizinhos imigrantes.

O sr. Panagiotaros confirma o que as sondagens já em Junho indicavam: dentro das forças policiais a percentagem de apoio ao Aurora Dourada é mais alta do que na população em geral. «Calculo que tenhamos agora mais de 50 ou 60% do corpo policial connosco – talvez mesmo mais – e este apoio continua a crescer todos os dias», diz o sr. Panagiotaros. Muitos dos seus clientes são polícias; compram não só equipamento de polícia de intervenção, mas também camisas de apoio ao grupo nazi Combate 18 e aos Chelsea Headhunters.

Os militantes do Aurora Dourada distribuem comida de graça às pessoas gregas depois de lhes pedirem a identificação.

 

A polícia de braço dado com os neonazis

Policiar esta crise grega seria sempre um enorme desafio, mesmo que a extrema direita não beneficiasse de enorme apoio dentro da polícia. Os anarquistas tentaram combater as patrulhas do Aurora Dourada nas zonas de imigrantes, criando patrulhas motorizadas com centenas de militantes. Durante um protesto de manifestantes motorizados, na semana passada, houve confrontos com o Aurora Dourada. Uma unidade da polícia motorizada, chamada Força Delta, deteve 15 manifestantes. Os detidos dizem que foram despidos e que lhes aplicaram teasers, posições de esforço (tortura), humilhações e espancamentos. Um relato destes acontecimentos da semana passada foi publicado no Guardian e tornou-se objecto de controvérsia na Inglaterra – sendo veemente negado pelo Governo.

A 8 de Outubro de 2012 outras 25 pessoas foram presas durante uma manifestação em frente do tribunal, em apoio aos manifestantes anteriormente detidos.

Fui ter com Yiannis e Maria, duas das pessoas que se queixam de maus tratos policiais, num apartamento sossegado em Exarchia, o bairro boémio de Atenas. Ambos aceitam falar na condição de não revelarmos os seus nomes verdadeiros e de filmarmos sem lhes revelar a cara. Apesar de apenas serem acusados de resistência pacífica, ficaram detidos quatro dias.

Yiannis, um dos detidos, conta-nos a história: «Revistaram-nos, mandaram-nos despir e ajoelhar. Bateram-me na cabeça e nos joelhos. Disseram: nós sabemos onde todos vocês vivem. Disseram-nos: vocês estão acabados; daqui para a frente as coisas não vão continuar a ser como dantes. Disseram que iam passar ao Aurora Dourada o vídeo que filmaram connosco. Escolheram-me a mim para servir exemplo aos outros. Obrigaram-me a dizer a todos os outros detidos: se desobedeceres eles vão atrás da tua mãe.»

A Maria, que se tinha mantido calma e confiante enquanto preparávamos a entrevista, manifesta clara perturbação assim que começa a contar a sua história. «Obrigaram-me a despir diante dos outros. A Força Delta chegou e começou a falar do Aurora Dourada como se fossem da mesma criação, incluindo o oficial de serviço. Fizeram a saudação a Hitler e disseram que ele era melhor que Estaline. Disseram-nos que não esquecêssemos que eles agora são apoiantes do Aurora Dourada.»

Apresentei estas alegações ao tenente Christos Manouras, porta-voz da polícia de Atenas. Ele respondeu-me: «Afirmo categoricamente que nenhum desses incidentes aconteceu nas instalações da polícia de Attica. A polícia grega respeita os direitos humanos. Isso é uma falsa história.» E acrescentou: «Essas acusações nunca foram apresentadas à polícia. Não foi feita queixa, de forma a que a polícia investigasse os acontecimentos. Seja como for, se alguém quiser identificar-se – ou mesmo fazer uma queixa contra terceiros –, nós investigaremos. Se for apresentada queixa contra a actuação policial, seja por racismo ou por violência contra outra pessoa, grega ou imigrante, faremos uma investigação a fundo.»

Dimitris Psaras, cujo novo livro, Golden Dawn's Black Bible, descreve em pormenor o crescimento recente da organização neonazi, acredita que a influência da extrema direita dentro da polícia é impresionante: «Existe uma osmose entre os apoiantes do Aurora Dourada, os membros da polícia e os seguranças particulares e dos bares nocturnos. Em muitos casos estes três serviços estão reunidos na mesma pessoa. Geralmente encontram-se nos ginásios e em determinados cafés cujos proprietários defendem a mesma ideologia.»

Segundo Dimitris Psaras, a brutalidade policial aplicada contra pessoas apanhadas na posse de drogas e imigrantes dá ao Aurora Dourada um claro sinal de que os seus ataques ilegais contra esses grupos serão bem-vindos.

Voltei a colocar ao tenente Manouras a questão de saber que medidas adoptaram os comandantes para mitigar os riscos de alguns polícias apoiarem as acções do Aurora Dourada. «Todos os dias traçamos planos operacionais sobre como lidar com esse fenómeno», disse ele. «Garanto-lhe que estamos do lado dos cidadãos e tentamos prevenir essas situações. É claro que não podemos estar em toda a parte. Não somos magos, não podemos garantir em dois minutos que nada de mal aconteça. Mas intervimos com prontidão para normalizar as situações.»

Um apoio crescente

O Aurora Dourada cresceu espectacularmente e num ápice. Primeiro, durante os distúrbios do Verão de 2011, quando o Laos, partido nacionalista da direita cristã, se desintegrou para se juntar à coligação pró-austeridade. O Laos desapareceu e no seu lugar surgiu o Aurora Dourada, com 6-7% nas eleições gerais inconclusivas de Maio e Junho de 2012. O segundo surto ocorreu agora, quando a coligação governamental – que inclui conservadores, socialistas e os marxistas «moderados» do Partido da Esquerda Democrática – falhou em estancar a crise.

A questão que alimenta o apoio ao Aurora Dourada é clara: a imigração ilegal. Confrontada com a impossibilidade de controlar as fronteiras, a coligação governamental iniciou uma caça aos imigrantes nas ruas das cidades e deteve cerca 4000 em campos de concentração. Outros 3000 foram deportados.

Um advogado experiente do partido da Nova Democracia (no poder) disse-me, em Junho: «A maneira de resolver o problema do Aurora Dourada é constituir uma polícia da imigração.»

Entretanto os meios de comunicação social ajudam à festa, associando sistematicamente os imigrantes ao crime. Resultado: as sondagens não param de mostrar o crescimento da extrema direita.

Theodora Oikonomides, jornalista da rádio alternativa RadioBubble, que tem seguido o crescimento do Aurora Dourada, exprime um medo comum a muita gente: «Os temas favoritos do Aurora Dourada, que são a xenofobia, a homofobia e o anti-semitismo, tornaram-se comuns no discurso público grego, tanto ao nível político como social. Ao não actuarem contra o Aurora Dourada, chegando mesmo ao ponto de fazerem a corte ao seu eleitorado sempre que podem, os políticos gregos – esses que estão agora no poder com o apoio dos seus parceiros europeus – abriram a caixa de Pandora e tão cedo não conseguirão fechá-la.»

Guerra política

No mês passado o primeiro-ministro Antonis Samaras avisou a Europa de que o seu país estava à beira de um colapso social semelhante ao que aconteceu na República de Weimar, na Alemanha.

O que eu vi nas ruas de Atenas convence-me de que esta afirmação não é puramente retórica. A situação está a mudar muito rapidamente.

Existe um partido de extrema direita muito violento, cujos dirigentes incitam impunemente à violência; uma polícia que não pode ou não quer impedir o Aurora Dourada de lançar na rua milícias fardadas; e uma classe média que se sente cada vez mais impotente para dar a volta à situação.

Quando Angela Merkel aqui veio na semana passada, ocorreram cenas violentas e um bloqueio total da cidade. A chanceler alemã apenas pôde verificar o impacto das medidas de austeridade impostas pela UE através da televisão.

Passo-vos uma descrição da segunda figura de comando do Aurora Dourada, Ilias Panagiotaros:

Está no jardim à porta da sua loja, protegido por uma vedação de 4,5 metros de altura e um grupo de guarda-costas musculados, seus camaradas, vestidos de camisa negra, e diz-me: «O Aurora Dourada está em guerra contra o sistema político e aqueles que o representam, contra os banqueiros nacionais e internacionais; contra aqueles que nos invadem – os imigrantes. Se o Syriza ganhar as próximas eleições, nós iremos ganhar as seguintes. Não se trata de um sonho – dentro de dois ou três anos seremos o maior partido político.»

E agora passo a palavra a Laertis Vassiliou, director do teatro que foi assaltado e encerrado:

«Se o comissário europeu para os Direitos Humanos, o Parlamento europeu e o Parlamento grego não intervierem nesta situação, até tenho medo de pensar no que possa vir a acontecer. A Europa tem de fazer qualquer coisa, se não quiser assistir ao renascimento do Terceiro Reich.»

Em suma: o resultado das políticas de austeridade do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da UE (União Europeia) e a implosão da política mainstream na Grécia parecem ser uma catástrofe para a democracia.

Fontes e referências: 

Reportagem de Paul Mason, disponível na BBC, 17/10/2012, ou no Youtube. Tradução: Rui Viana Pereira.

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