18/10/2012

A religião dos mercados

Quase todos os dirigentes políticos, sejam de esquerda ou de direita, sejam do Norte ou do Sul, devotam um verdadeiro culto ao mercado, e aos mercados financeiros em particular. Deveria dizer-se que eles fabricam a religião dos mercados. E todos os dias é dita uma missa para honrar o deus Mercado, em cada lar munido de uma televisão ou de ligação à internet, no momento em que são debitadas as cotações da Bolsa e as previsões do mercado financeiro. O deus Mercado envia sinais pela voz do jornalista de economia e do cronista financeiro. E isto acontece não apenas em todos os países mais industrializados, mas também em quase todo o planeta. Quer se esteja em Xangai ou em Dakar, no Rio de Janeiro ou em Tombuctu, receberemos sempre os «sinais enviados pelos mercados». Por exemplo, na Europa, toda e qualquer pessoa saberá logo de manhã como evoluiu o Nikkei ao longo do dia na Bolsa de Tóquio, apesar de isso não interessar praticamente a ninguém: as raras pessoas interessadas estão informadas por outros meios que não a informação contínua via rádio... Em toda a parte, os governantes privatizaram as grandes empresas, criando a ilusão de que a população podia participar directamente nos rituais do mercado (comprando acções) e receber um benefício na medida em qeu soubesse ler bem os sinais enviados pelo deus Mercado. Na realidade, a pequena parcela daqueles que adquiriram essas acções não tem qualquer peso nas tendências do mercado.

Os milhões do culto

Daqui a alguns séculos, talvez se leia nos manuais de História que, a partir dos anos 1980, um culto fetichista fez furor. O crescimento deste culto talvez seja relacionado com os nomes de dois chefes de Estado: Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Será dito que este culto beneficiou desde início do apoio dos poderes públicos (que se ajoelharam voluntariamente diante deste deus que os privava de grande parte do seu poder de antigamente) e dos potentados financeiros privados. Para que este culto conseguisse ter algum eco na população, foi preciso que os grandes media lhe prestassem homenagens diárias.

Os deuses desta religião são os Mercados financeiros. Os templos que lhes são dedicados têm por nome Bolsas. Os grandes padres e seus acólitos são os seus únicos fiéis. O povo dos crentes apenas é convidado a comunicar com os deuses Mercados por intermédio do pequeno ecrã de televisão ou de computador, do jornal diário, da rádio ou do guichet do seu banco.

Até nos cantos mais remotos do planeta, centenas de milhões de seres humanos, a quem é negado o direito de satisfazer as suas necessidades básicas, são chamados a celebrar os deuses Mercados. A Norte, nos jornais lidos pela maioria dos assalariados, das donas de casa, dos desempregados, é diariamente impressa uma rúbrica do tipo «Onde investir o seu dinheiro?», quando a esmagador maioria desses leitores e leitoras não tem meios – nem talvez a vontade – de comprar qualquer acção na Bolsa. Mas os jornalistas são pagos para ajudar os crentes a compreender os sinais enviados pelos deuses.

Para amplificar, no espírito dos crentes, o poder dos deuses Mercados, os comentadores anunciam periodicamente que estes enviaram sinais aos governos para indicar a sua satisfação ou descontentamento. Por exemplo, o governo e o parlamento gregos compreenderam finalmente a mensagem enviada e adoptaram um plano de austeridade de choque que obriga ao sacrifício dos de baixo. Os deuses estão descontentes com o comportamento da Irlanda, de Portugal e de Espanha. Os seus governos devem portanto oferecer-se ao sacrifício de fortes medidas anti-sociais.

Sacrifícios no altar

Os locais onde os deuses podem manifestar os seus humores com mais força são Wall Street em Nova Iorque, a City em Londres, as Bolsas de Paris, de Frankfurt ou de Tóquio. Para medir a sua aprovação, foram inventados instrumentos que têm por nome: Dow Jones em Nova Iorque, Nikkei em Tóquio, CAC40 em França, Footsie em Londres, Daz em Frankfurt [e o PSI-20 em Portugal]. Para garantir a benevolência dos deuses, os governos sacrificam os sistemas de segurança social ao altar da Bolsa. E privatizam-nos também.

Por que se concederam poderes religiosos a simples operadores? Eles não são nem desconhecidos nem pobres de espírito. Têm um nome, uma morada: são os principais dirigentes de duas centenas de grandes multinacionais que dominam a economia mundial com a  ajuda do G7, a condescendência do G20 e de instituições como o FMI, retornado à boca de cena graças à crise, depois de um período de purgatório. E também o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (esta caiu um tanto em desgraça, mas talvez venha a recuperar a graça dos deuses). Os governos abandonaram os meios de controlo que detinham sobre os mercados financeiros. Os investidores institucionais (os «zinzins»*: bancos grandes, fundos de pensões, seguros, hedge funds...) que os dominam receberam dos governos biliões de dólares sob a forma de donativos ou de empréstimos que lhes servem para tomar as rédeas depois do desastre de 2007-2008. O Banco Central Europeu, a Reserva Federal Americana, o Banco de Inglaterra emprestam-lhes todos os dias, a uma taxa inferior à inflação, grandes somas de capital que os «zinzins» se apressam a utilizar especulativamente contra o euro, contra a tesouraria dos Estados, sobre o mercado das matérias-primas...

Hoje o dinheiro pode circular entre Estados sem qualquer imposto. Nos mercados de divisas, todos os dias circulam 4 biliões (4.000.000.000.000) de dólares passando por cima das fronteiras. Menos de 2% deste montante destina-se directamente ao comércio mundial e aos investimentos produtivos. Mais de 98% serve operações especulativas sobre moeda, sobre títulos de dívida, sobre matérias-primas, sobre alimentos.

É preciso pôr fim à banalização desta lógica mortal. É preciso criar uma nova disciplina financeira, expropriar o sector financeiro e submetê-lo ao controlo social, taxar fortemente os «zinzins» que provocaram e depois se aproveitaram da crise, auditar e anular as dívidas públicas ilegítimas, pôr em marcha uma política fiscal redistributiva, reduzir radicalmente o tempo de trabalho de modo a dar emprego massivo e a garantir o valor dos salários... Face à religião do Mercados, começar a implementar um programa laico. Anticapitalista, portanto...

 


* Zinzin é uma abreviatura fonética a partir de «les-investisseurs-institutionnels» (les-in-s-ins), utilizada para designar os organismos de investimento institucional que gerem grandes somas de dinheiro por conta de outros: sociedades de seguros, fundos de pensões, etc.

Fontes e referências: 

Traduzido por Leonor Areal do livro La Dette ou la Vie de Damien Millet e e Eric Toussaint (org.), Liège: Aden/CADTM, 2011.

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