18/09/2012

O novo paradigma

Portugal rejeitou, nas ruas, a 15 de Setembro de 2012, as políticas da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) e as políticas neoliberais do governo de coligação PSD/CDS, desafiando a esquerda. Num país conhecido pelos seus «brandos costumes» ou falta de participação cívica e política, mais de um milhão de pessoas (10% do eleitorado) manifestou-se, por todo o país, algo só visto no 1º de Maio de 1974, uns dias após a Revolução dos Cravos que terminou com 48 anos de regime autoritário.

No sábado, em Portugal, deu-se uma «revolução política», uma explosão de cidadania. De repente, a «política», na sua forma democrática mais nobre, a participação cidadã, invadiu as ruas do país num protesto apartidário e assindical, organizado pela sociedade civil. Sintomático! «O povo unido jamais será vencido», a palavra de ordem da Revolução de Abril de 1974, foi o grito de indignação mais proclamado pelos milhares de portugueses que caminharam contra a Troika e pelas suas vidas.

Os portugueses aderiram em massa a uma proposta transversal. Exerceram a democracia participativa. Perante instituições, partidos e representações, mostraram ter apreço por outra forma de fazer política, em sintonia com um paradigma mais participativo e autónomo. O mote foi anticapitalista: «queremos as nossas vidas». Os portugueses querem viver com dignidade e ser donos do seu dia-a-dia. Rejeitam ser objectos ou mercadoria nas mãos de especuladores. Estão contra a política dos baixos salários e pensões. Estão contra a exploração, a depressão e a recessão. Querem crescer mais! Querem de volta o estado social conquistado, a pulso, pelos antepassados. Os portugueses não estão à venda. Atingiram a maioridade!

Os portugueses queixam-se que a fome é uma ameaça. «Gatunos»! «Que se lixe a Troika!». Sentem-se roubados e não querem mais políticas de austeridade. A propósito da dívida pública, gritam: «esta dívida não é nossa!», «não pagamos, não pagamos»! Os portugueses não admitem que o governo tire aos trabalhadores para dar ao capital, como pode acontecer se a subida de 7% da taxa social única (TSU) se vier a concretizar no próximo orçamento de Estado. E, para cúmulo, os patrões também não! Defendem os trabalhadores neste particular. A medida é rejeitada por todos, menos pelo governo que confessa, para estarrecimento do país, que subirá a TSU mesmo sem ter ainda tocado nas parcerias público-privadas, sem ter cortado na despesa das empresas públicas e estando prontinho para desbaratar mais património de todos nós. O descaramento ultrapassou todos os limites.

Perante este (des)governo, nem as cedências keynesianas nos valem. Eles são os puristas do mercado: os neoliberais confessos, anti-regulação, evangélicos que crêem que a fé tudo regula. É ideológico! Vítor Gaspar, ministro das Finanças, admitiu-o aos portugueses. A propósito da subida da TSU, assumiu que as transferências do trabalho para o capital serão em regime de roda-livre. O Governo tem fé nos empresários. Diz Gaspar que cabe à cidadania fiscalizar.

«Basta!», gritaram de indignação os portugueses. É urgente uma solução à esquerda que dê formas, que podem ser caleidoscópicas, às vontades de um povo que não quer perder a sua soberania e dignidade: «o FMI fora daqui!». Não queremos pagar dívidas ilegítimas e juros usurários (a usura não era «pecado»!?). Queremos libertar dinheiro para satisfazer as necessidade básicas dos portugueses, para trazer de volta o estado social, o serviço nacional de saúde e a escola pública, para estimular a iniciativa dos cidadãos a nível social e económico, de forma regulada e organizada. Precisamos de dar largas à criatividade, de inventar e construir fórmulas dignas, à escala humana, num clima de igualdade e de liberdade. Basta de soluções autistas e hegemónicas. Precisamos de nos unir, de nos ouvir, de nos sentir, de dialogar das mais diversas formas e de encontrar soluções que nos restituam as nossas vidas. Precisamos de ânimo e de seguir em frente.

Os portugueses estão aí, a fazer o seu trabalho. E a Esquerda? Está à altura do novo paradigma e da revolução em curso!?

Secção: 
Editores: 
Subscribe to Syndicate