06/05/2012

Após a nova Pré-História

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À medida que a crise económica segue o seu caminho aliada à política de austeridade, um número cada vez maior de pessoas, que durante a última década construiu expectativas de vida proporcionadas por um ambiente desafogado, ruma hoje pelo dia-a-dia com apreensão crescente. A aparente apatia perante esta guerra contra a sociedade levada a cabo pelas forças dominantes faz desconfiar que milhares de lares portugueses vivem hoje uma paz instável, cheia de angústias e incertezas.

Ao desemprego crescente e à precariedade dos vínculos laborais, acresce a anuência do poder político que, quando não intervém activamente no sentido de agravar as condições de trabalho, disfarça os novos modelos de exploração sob um manto de hipocrisia.

Habituámo-nos a conviver com a esquizofrenia de um modelo social e económico dividido entre uma liberdade formal e uma realidade onde uma espécie de atavismo feudal transforma o dinheiro e a alta finança em novos referenciais. Como não poderia deixar de ser, o modelo económico contagia a sociedade, que reproduz os seus preceitos nos comportamentos e atitudes ao ponto de, nesta sociedade pós-industrial, se conjugar o pior de dois mundos: os velhos fantasmas de uma sociedade onde persistem graves clivagens sociais e onde a luta de classes foi amiúde desvigorada pela acção paternalista e conciliadora da Igreja, e a alta sofisticação das formas de violência. Mas a luta pela liberdade deve ser permanentemente reinventada, assim como permanentemente se reinventam as forças dominantes. Muitos mostrariam perplexidade perante a excessiva porosidade de certos conceitos: «Não é um liberal alguém que defende a liberdade?»; «Porque passam as revoluções e tudo volta ao mesmo?», acrescentariam. O poder assenta numa permanente restruturação. Por isso o liberalismo herdeiro da Revolução Francesa conjuga as forças divergentes de uma burguesia sedenta de poder e certos sonhos libertários de românticos contra o poder estabelecido e economicamente esclerosante do feudalismo. A transformação da lei num instrumento da revolução contra a arbitrariedade foi convertida em apanágio de um poder burguês que alterna os altos cargos de governo com posições destacadas em empresas.

Deverá ser o retomar do poder pelo povo e a reabilitação da capacidade de exercício da violência a recuperar os valores eternos da Revolução Francesa. As leis e instituições são letra morta se estas não se alicerçarem num equilíbrio de forças. O verdadeiro legitimante da exploração capitalista é a incapacidade negocial do trabalhador, preso e única presa de um poder político que mais não é do que a boca de um novo fascismo representado pelas empresas.

Este novo monstro, quando ainda embrionário, foi identificado por Pasolini em meados da década de setenta. No último dos seus filmes: “Salò ou os Cento e Vinte das de Sodoma”, quatro poderosos na cidade de Salò, último reduto fascista na Itália de Mussolini, raptam um conjunto de jovens portadores de certas qualidades físicas. Isolados numa mansão, os fascistas praticam todo o tipo de sevícias: abusos sexuais, agressões, fome, ingestão de dejectos humanos e, finalmente, aquilo que os próprios designaram como o ”derradeiro sacrifício”: a tortura e morte dos jovens. Terá sido também o derradeiro sacrifício do autor, assassinado antes da estreia do filme.

O fascismo retratado por Pasolini em Salò não é apenas um fascismo enquanto experiência histórica localizada entre a década de 20 e a década de 40 do século passado. É sobretudo um fascismo do consumismo e da revolução cultural que se lhe seguiu. Esta revolução que na opinião do mesmo autor penetrou as entranhas da sociedade e alguns grupos que haviam passado incólumes durante toda a sua história. Esse fascismo do futuro, uma nova pré-história onde os corpos são um valor mercantil, encarna o potencial ilimitado de exploração.

Quando o mesmo Pasolini considera que os filhos pagam pelos erros dos pais, não nos estranha que sejamos nós e as futuras gerações a nova horda preparada para o sacrifício na economia dos serviços, onde a mais-valia retirada da prestação laboral é um verdadeiro esforço de subjectivação perdido na incomensurabilidade do ganho.

Este: o novo antropos fundado no referencial do marketing, muito mais do que a forma de comercializar um produto, uma forma de comercializar absolutamente tudo, inclusive a própria dignidade humana. A parafernália de conceitos incutidos pela cultura empresarial, “espírito de liderança”, “orientação para resultados”, “empreendorismo”, “gestão por objectivos”  –  um missal repetido até à exaustão pelo poder instituído, forças governamentais, meios de comunicação social, para pobres espíritos deixados órfãos pela morte das grandes ideologias. São a máscara perfeita de um regime brutal que procura encobrir relações de trabalho desastrosas.

Esta é a consciência histórica que deve enformar o renascimento dos movimentos sociais, que cada vez mais incorrem no risco de serem apelidados de movimentos desesperados de náufragos de uma determinada narrativa e estilos de vida que, por circunstâncias diversas, deixaram de figurar entre as possibilidades reais num novo mundo de possibilidades simbólicas. Agarrar esse ideal de vida como instrumento de luta seria como carregar um peso morto. 

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