04/05/2012

A jogada Pingo Doce

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No dia 1 de Maio a cadeia de supermercados Pingo Doce fez uma súbita campanha de venda de todos os seus produtos com desconto de 50%.

Os resultados foram notáveis:

  • Gerou-se uma corrida de consumidores sem precedentes, com milhares de pessoas estacionadas todo o santo dia dentro e fora dos supermercados – até foi preciso chamar a polícia para pôr ordem na confusão.
  • Essas dezenas de milhar de pessoas que tiveram de alinhar 3 a 6 horas em filas de espera, como é evidente, deixaram de poder participar na comemoração do 1.º de Maio, e na reflexão do seu significado. E provavelmente foram levadas a não racionar a sua economia doméstica.
  • Os comentadores políticos de serviço nas televisões deram graças por um novo tema de debate sobre o qual, como de costume, nada de jeito souberam dizer, para além de vagas moralidades.

Mas então o que está realmente em causa em jogadas comerciais deste tipo? Isso mesmo explica Augusto Flor, num comentário enviado à Revista Rubra:

O Pingo Doce deve ter arrecadado à volta de 90 milhões de euros em poucas horas em capitalização de produtos armazenados

De onde saiu o dinheiro: algum do bolso dos consumidores, mas grande parte saiu das contas bancárias por intermédio de cartões. Logo, os bancos vão acusar a saída de tanto dinheiro num curto espaço de tempo – no princípio do mês, em que os bancos contam com esse dinheiro nas contas, para se organizarem com ele. Mas ainda ganham algum, porque há quem compre a crédito.

Ora, se o Pingo Doce pedisse esse dinheiro à Banca, iria pagar, digamos a 5%, em 5 anos, 25% da quantia. Assim não paga nada. O povo deu-lhe boa parte do seu ordenado a troco de géneros. Alguns vão ver-se à rasca porque com arroz não se paga a electricidade.

O resto, 75% da quantia aparentemente «oferecida», distribuiu-se assim:

  1. Uma parte dos produtos (talvez 20 a 25%) devem estar a chegar ao fim do prazo de validade. Teriam de ser amortizados como perdas e   lançados ao lixo. Enquanto não fosse lixo seria material que entraria como existência, logo considerado como ganho e sujeito a impostos. Assim poupam-se impostos, despesas de armazenamento (logística, energia, pessoal) e o povinho acartou o lixo futuro.
  2. Outra parte (10 -15%) seria vendida com os habituais descontos de ocasião e as promoções diárias. Uma parte foi ainda vendida com lucro, apesar do «desconto».
  3. O Pingo Doce prescinde ainda de 30 a 40% do que seria lucro por motivos de estratégia empresarial a saber:
    • Descartar-se da concorrência das pequenas empresas. Quem comprou para dois meses não vai às compras nesse mesmo tempo.
    • Aumentar a clientela, que agora simpatiza com a cadeia «benfeitora».
    • Criar uma situação de monopólio ao fazer pressão sobre os preços dos produtores (que estão à rasca e muitos são espanhóis) para repor os novos stocks em grande quantidade.
  4. Transpor já  para euros parte do capital parado em armazém e levá-lo para fora do país, uma vez que a sede da empresa está na Holanda. Não vá o diabo tecê-las e isto voltar ao escudo nos próximos tempos, o que levou já J. Martins a passar a empresa para a Holanda.
  5. Diminuir com isto o investimento em Portugal, encurtar a oferta de produtos, desfazer-se de algum armazém central e com isso despedir alguns funcionários. O consumo vai diminuir no futuro e o Estado quer «imposto de higiene» pago ao metro quadrado.
  6. Poupança em todo o sistema administrativo e em publicidade – a comunicação social trabalhou à borla para eles.

Mesmo que tudo fosse ilegal, a multa máxima para dumping é de 15.000 a 30.000 euros; para o resto não há medidas jurídicas. Verdadeiramente isto são «feijões» em sacos de Pingo Doce, empresa do homem mais rico de Portugal.

A ASAE irá só apresentar serviço.

E o governo o que faz? Até agora calou-se. Se calhar sabia da manobra.


O grupo Jerónimo Martins, a que pertence a cadeia Pingo Doce, é o mesmo que em Março de 2010 estava sob investigação judicial devido à forma como obteve licenciamentos por parte de algumas câmaras (também elas sob investigação). É claro que, tanto quanto sabemos, a investigação deu em nada, como de costume.

É também um dos muitos grupos e empresas que fogem ao pagamento dos impostos em Portugal e colocam o seu capital no exterior, em vez de o reinvestir no sector produtivo. O mais certo é este imenso capital recolhido em poucas horas acabar por ser desbaratado nalguma operação de apostas financeiras, ou no endividamento de um país periférico qualquer, ou noutro «investimento tóxico» semelhante. (Ver artigo de opinião «A estratégia dos grandes grupos económicos: não pagamos!»)

Fontes e referências: 

Este texto foi extraído de um comentário de Augusto Flor, enviado à Revista Rubra.

Sobre as ilegalidades de licenciamento do grupo Jerónimo Martins em 2010: RTP1.

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