11/03/2012

Afinal de quem é a culpa?

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O texto “a economia não tem culpa” aqui publicado a 19 de Janeiro foi escrito como comentário numa discussão e não tinha em mente a sua publicação. Nesse texto a “economia” refere-se à ciência social que estuda os fenómenos económicos, sejam lá o que eles forem, e não se refere a esses fenómenos económicos em si.

Seja como for, se existe um texto com semelhante título, então deve também existir, do mesmo autor, uma tentativa de atribuição de responsabilidades neste processo a que chamamos “a crise”.

A culpa é sempre das pessoas, uma vez que é a elas que atribuímos a capacidade de consciência e o poder para agir de forma diferenciada em cada situação, elementos fundamentais da culpa.

Mas quem em particular é que nos meteu nesta situação? Bom, eu penso que uns menos, outros mais, mas em geral somos todos culpados. Basta pensarmos no que é que poderíamos ter feito no passado para impedir ficar nesta situação e não fizemos. Não sabíamos? Poderíamos ter tentado saber. Não agimos? Poderíamos ter tentado agir. E só escapa desta lista de culpados quem de facto fez tudo o que estava ao seu alcance (coisa difícil de provar) ou não tinha mesmo possibilidade de fazer de outro modo (igualmente difícil de provar).

Dito isto, há certamente graus de culpa muito distintos a atribuir por todos nós. Para resumir o rosário, o comum mortal pode ser acusado de cumplicidade negligente. O dolo fica para os incomuns mortais que ao longo de muito tempo implementaram o sistema económico em que agora vivemos. E isso é mesmo muito tempo!

Reparem: dantes os senhores feudais compreendiam que se se aproveitavam da plebe que viva nas suas terras, então tinham de lhes fornecer condições mínimas de vida em troca. Hoje queres uma casa para ter um sítio onde viver, tens de ir pedir um empréstimo ao banco. O banco, o dinheiro, o crédito à habitação e a tudo o mais, o FMI, as agências de rating, o euro, a União Europeia, o Banco Central Europeu, a política e a “democracia” que temos, nada disso se fez de um dia para o outro. Foi uma dura batalha até conseguirmos chegar a este estado tão apurado de ladroagem. E a prova de que ele é apurado é que tudo é legal!

 

Enfim, é um bom princípio de qualquer investigação procurar o móbil do crime. E para o encontrar nada melhor do que investigar quem é que poderá beneficiar com ele.

 

Os juros que o Estado paga, paga-os sobretudo a quem?

Os empréstimos que o Estado contraiu serviram para pagar sobretudo a quem?

 

A resposta comum é: quem mais tem.

 

Quanto aos políticos, entre defender os interesses de quem cobra juros agiotas ou os interesses da população portuguesa, já sabemos qual foi a sua opção. Entre preservar os instrumentos de política económica e com eles a soberania da população portuguesa ou facilitar a vida a quem tem muito, também já se vê qual foi a sua opção. Os políticos são mandatários de si próprios e de quem tem mais poder que eles.

 

Quanto a nós, temos simplesmente de deixar de ser totós e de esperar que os outros, políticos ou não, defendam melhor os nossos interesses do que nós próprios. E se um dia, à custa de tanto defendermos os nossos interesses, nos tornarmos iguais a eles, esperar que haja outros melhor do que nós a impedir que façamos como eles.

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