Breve crónica comentada da auditoria cidadã em Portugal

Breve crónica da Iniciativa por uma Auditoria Cidadã da dívida pública portuguesa (IAC), na tentativa de contrariar a ausência de memórias colectivas.[1]

Por falta de testemunho directo de muitos passos deste processo, os dados que aqui deixo são bastante incompletos. Igualmente incompletas são as referências documentais, por motivos que adiante se esclarecerão.

[4ª revisão]

Primeiros passos duma Iniciativa pela Auditoria Cidadã

No Verão de 2011 um pequeno grupo de pessoas encetou a louvável tarefa de preparar uma auditoria cidadã. O grupo de trabalho daí resultante viria a chamar-se Iniciativa por uma Auditoria Cidadã (IAC).

Não possuo dados sobre os primórdios desta iniciativa nem sei garantidamente quem constituiu o seu núcleo inicial; possuo apenas indícios de o Movimento 12 de Março (M12M) ter desempenhado um papel fulcral (ver envolvimentos mais adiante). Ao longo de todo o processo os elementos do M12M fizeram um esforço visível e estrénuo para levar a IAC por diante e portanto grande parte dos méritos é-lhes devida.

As reuniões começaram por ter assento numa sala do Centro de Estudos Sociais (CES) e noutra do Sindicato dos Professores de Lisboa; passado algum tempo, sedearam-se na Associação 25 de Abril (A25A).

Convém notar que o M12M contava com um pequeno número de pessoas que desde há meses vinham estudando a crise da dívida e o processo de auditoria cidadã, tendo mesmo enviado um dos seus elementos à Universidade de Verão do CADTM na Bélgica. É plausível que logo aí esse grupo tenha começado a estabelecer alguns contactos e apoios a nível internacional.[2]

Ao longo de várias semanas foram sendo chamadas mais pessoas a integrar a IAC, acabando por somar, salvo erro, 30 a 35 pessoas – entre as quais, eu próprio acabaria por ser convidado. O grupo de trabalho da IAC tornou-se razoavelmente diversificado, embora com uma limitação: a participação de alguns sectores de militância cívica e política mais activos nesse momento da cena política portuguesa foi vetada por uma parte dos membros do grupo. Tanto quanto pude entender, a entrada de uns implicaria a saída dos outros.

A IAC começou então a preparar as tarefas necessárias à criação de uma auditoria cidadã.

Logo de início uma coisa me deixou perplexo: o grande nível de secretismo. A IAC constituiu-se como uma sociedade fechada, clandestina, maçónica. Recordo que aceitei estas condições de adesão de boa-fé, mas ainda assim com desconforto – a minha visão do que deve ser um processo de auditoria cidadã é antagónica deste procedimento, ou seja, parte do princípio de que o fechamento do processo de criação duma auditoria cidadã sobre si mesmo cria o risco de lavrar a sua certidão de óbito e saldar-se num dispêndio de energias gigantesco mas inútil.

A segunda perplexidade surgiu assim que me apercebi de que já existia dentro da IAC uma linha dominante e consolidada de pensamento e acção. Esta linha encontra-se expressa em documentos de trabalho[3] que concluíam  a priori a necessidade de reestruturar a dívida (isto é, explicitamente, renegociar as condições de pagamento e os prazos de maturidade da dívida).

Ao longo das reuniões foi abundantemente expresso por algumas das figuras tutelares um asco à cooperação com pessoas associadas à tese da suspensão do pagamento da dívida ou da anulação total ou parcial da dívida (sendo eu a excepção miraculosa) – expressão tanto mais desconcertante quanto ninguém tinha colocado directa ou indirectamente essa tese em cima da mesa, incluindo eu próprio, por considerar que aquele não seria o lugar adequado, que seria presunção incorrecta propor à partida uma solução final e que a proposição poderia fracturar a iniciativa.

Esperava eu ir encontrar um conjunto de pessoas que, dando por adquirida e assente a utilidade e a natureza duma auditoria cidadã, se ocupasse de discutir não só as implicações técnicas e logísticas, mas sobretudo os meios para envolver os cidadãos de forma aberta e alargada, tanto quanto possível blindada a sectarismos e outros constrangimentos, a fim de construir uma movimentação social com massa crítica e peso negocial. Encontrei um extenso documento de trabalho, bem articulado, com análises genéricas sobre a crise da dívida e a situação económica local e mundial que serviam de preâmbulo a um parágrafo de conclusões definitivas: a tese da reestruturação como saída para a crise da dívida, à semelhança do que já nessa época defendiam os economistas e políticos neoliberais – com renegociação dos prazos de maturidade e das condições de pagamento. As minhas propostas no sentido de retirar toda a presunção ab initio e manter abertas todas as hipóteses de conclusão final, remetendo-a para momento posterior a um processo unitário de auditoria cidadã, foram firmemente recusadas.

A necessidade e os métodos relativos aos meios de informação, formação e mobilização cidadã nunca fizeram parte da ordem de trabalhos das reuniões.

Os documentos de trabalho e as intervenções nas reuniões revelaram objectivamente que as pessoas mais influentes no estabelecimento duma linha de pensamento e acção não tinham (e creio que ainda hoje continuam a não ter) uma noção aproximada do que seja uma auditoria cidadã, confundindo-a com um processo de auditoria técnica, contabilística, economicista, levada a cabo por técnicos, apenas diferindo duma empresa de auditoria técnica pelo facto de não serem principescamente pagos e não terem um cartão de livre acesso aos documentos do Estado. Este facto foi tanto mais desconcertante quanto eu sabia que pelo menos alguns dos iniciadores da IAC tinham uma noção clara da natureza duma auditoria cidadã e tinham estudado os antecedentes históricos deste tipo de iniciativas – sem no entanto criarem oposição à linha que ia dominando. Temos de admitir aqui a hipótese de, como dinamizadores e «cimento» do processo, preferirem não entrar em despique; caberia nesse caso a pessoas como eu propor alternativas. O certo é que não houve forças para contrariar as duas referidas teses (reestruturação e tecnicismo) e foi essa a linha hegemónica que vingou.

Constituição da comissão de auditoria cidadã

Para efeitos legais, a IAC registou a Associação Artigo 37º, que garantiu personalidade jurídica à iniciativa a partir de Novembro de 2011. Pela mesma altura inaugurou-se um site da IAC.

A 15 de Novembro de 2011, em conferência de imprensa realizada na sede da A25A (na mesa estavam Raquel Freire, Manuel Carvalho da Silva, José Gusmão e José Maria Castro Caldas), a IAC foi finalmente tornada pública. Durante a conferência de imprensa foi feito um apelo e convocatória para uma Convenção nacional, subscrita por cerca de 270 pessoas. A Convenção foi marcada para 17-12-2011, no Cinema São Jorge, em Lisboa; seria de livre acesso, com âmbito nacional; propunha-se, digamos assim, a legitimar uma comissão de auditoria cidadã à dívida pública portuguesa, através da aprovação de uma Resolução e de uma lista de membros para a futura comissão de auditoria cidadã.

Entre as incumbências da IAC propostas no documento, incluía-se «Deliberar acerca das formas de organização do processo de auditoria que articulem uma participação cidadã activa com o contributo especializado de peritos» – mas esta declaração formal não correspondia às intenções expressas durante as reuniões e menos ainda deu origem a quaisquer actos concretos de mobilização e organização. A formulação do texto, aparentemente, coloca em pé de igualdade a mobilização cidadã e o contributo dos técnicos. Mas a letra do texto tem ser entendida à luz do desenrolar dos acontecimentos: a proposta inicial não equacionava sequer a existência dos movimentos cívicos no processo de auditoria cidadã; perante a insistência do autor destas linhas em levar até à Convenção uma proposta que desse papel crucial aos cidadãos, chegou-se àquela formulação de compromisso – o que não significa a existência de vontade política para colocar os movimentos de cidadãos no cerne dos acontecimentos, apelando estes por sua vez à participação de técnicos.

Na véspera da Convenção, dia 16-12-2011, foi feita uma sessão pública de apresentação, esclarecimento e debate sobre a dívida pública e a auditoria cidadã, tendo por oradores Ana Benavente[4], Eric Toussaint[5] e Costas Lapavitsas[6].[7]

Convenção de Lisboa, 17-12-2011

O programa

Publicado em http://auditoriacidada.info/content/programa-da-convenção. Ver no mesmo endereço a Resolução adoptada pela Convenção.

Mesa dos trabalhos: não retenho de memória a composição exacta da mesa ao longo dos trabalhos; referirei alguns dos nomes propostos nas reuniões de preparação: Raquel Freire, João Labrincha, Ana Benavente, Carvalho da Silva, António Carlos Santos. Durante a apresentação e debate da Resolução funcionou uma mesa técnica onde pontuou a figura tutelar de José Castro Caldas, redactor principal do projecto de resolução.

Passaram pela mesa os oradores convidados: Eric Toussaint, Costa Lapavitsas.

As apresentações

A convenção ocupou a manhã e tarde de dia 17-12-2012 e contou com a presença de mais de 700 pessoas, segundo as contas dos organizadores.

As comunicações e documentação presentes na reunião podem ser consultados no site da IAC, na secção Convenção de Lisboa. Destaco as apresentações sectoriais (PPP, sector da saúde, etc.), que constituíram um bom trabalho de investigação prévia e prometiam excelente trabalho futuro (ver a referida secção do site).

Os oradores convidados enquadraram os aspectos internacionais da questão da dívida e os seus antecedentes históricos; trouxeram um valioso contributo da experiência que cada um deles possui em matéria de auditoria cidadã, lançando alertas para alguns problemas e armadilhas; fizeram questão de sublinhar repetidamente a complexidade e vastidão técnica da auditoria e a impossibilidade de realizar uma auditoria cidadã sem mobilização popular.[8]

Os métodos

Numa época em que se assistia em Portugal, pela primeira vez desde há várias décadas, a diversos ensaios de chamamento da sociedade civil ao debate e à intervenção política de forma directa, aberta e não sectária, a preparação da convenção nacional da IAC foi, no mínimo, conservadora. Embora a resolução final fosse posta à disposição dos participantes na convenção com antecedência suficiente, o mesmo não se pode dizer das propostas alternativas.

O resultado foi o que seria de esperar: na ausência de um debate preparatório alargado e aberto, na impossibilidade de prolongar indefinidamente a assembleia ali reunida, a Resolução aprovada por esmagadora maioria na Convenção foi a que tinha sido preparada pelo grupo secreto, sem tirar nem pôr; o mesmo para a lista de membros da comissão de auditoria cidadã. Assim, o que saiu da convenção foi um documento que, como já referi, embala em várias páginas de considerandos e análises políticas e económicas para desaguar na defesa da reestruturação-renegociação da dívida.

Quanto à lista de nomes para a comissão de auditoria, seria para mim um terceiro motivo de perplexidade. À excepção de 3 ou 4 elementos, nenhuma das pessoas que ao longo de mais de um ano estudaram, produziram e publicaram trabalhos sobre a questão da auditoria cidadã e da dívida soberana foi convidada a fazer parte da comissão. Pelo contrário, a comissão inclui pessoas que, embora sendo muito estimáveis a vários títulos profissionais ou pessoais, aparentemente nunca tinham estudado e pensado o assunto; algumas nunca estiveram presentes em nenhuma das reuniões preparatórias da IAC. O que poderão estar elas a fazer na comissão de auditoria é para mim uma incógnita.

Envolvimentos pessoais, colectivos e partidários

Iniciadores

O meu desconhecimento dos primeiros passos do processo de criação da IAC leva-me a ser prudente na explicitação de nomes e responsabilidades. Se, por um lado, seria de inteira justiça louvar o esforço dos iniciadores indicando-os pelo nome, por outro lado a apresentação duma lista incompleta poderia ferir susceptibilidades.

Julgo poder dizer com segurança que o M12M teve um papel essencial nesse arranque. É possível, no entanto, que o tenha feito em parceria com outros grupos e pessoas – além de pessoas sem qualquer vínculo particular, parecem ser candidatos plausíveis, ainda que a título individual e não colectivo, vários membros da A25A (Associação 25 de Abril), dos Precários Inflexíveis, da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta).

Organizações partidárias

Apesar da participação de um ou mais militantes do PS, o apoio deste partido está completamente fora de causa, como é evidente – apenas tem a perder com a investigação dos processos de endividamento público e respectivos responsáveis.

O Bloco de Esquerda parece apoiar sem hesitações, embora não se imiscua directamente – o que de facto seria incorrecto e desastroso políticamente. O seu jornal esquerda.net acompanha de perto todas as iniciativas da IAC, o que permite supor apoio inequívoco.

O PC parece ter assumido uma típica atitude autista de ignorar o assunto, fazendo de conta que ele pura e simplesmente não existe na realidade material deste mundo – pelo menos posso dizer que uma busca sobre «auditoria cidadã» e «IAC» no jornal Avante! resulta em nada. Isto não significa que não possa haver militantes do PC envolvidos, a título individual, na IAC.

Diversas organizações e movimentos políticos, tanto quanto sei, ou não se pronunciam por estarem em desacordo mas não quererem hostilizar, ou pura e simplesmente não concordam com a ideia de auditoria cidadã.

Organizações cívicas e outras

Já referi o M12M, os Precários Inflexíveis, a UMAR, a A25A. No entanto, à excepção do primeiro, pode acontecer que seja incorrecto referir aquelas organizações, sendo preferível apontar a participação de alguns dos seus membros a título pessoal.

O CES (Centro de Estudos Sociais) e o Sindicato dos Professores de Lisboa cederam salas de reunião – mas o simples facto de as reuniões terem um carácter secreto implica a impossibilidade de deduzir qualquer tipo de apoio «oficial» das respectivas direcções.

A ATTAC Portugal apoia claramente, a julgar pelos artigos on-line.

O Portugal Uncut pelo menos tem alguns dos seus membros na IAC.

É possível que existam várias outras organizações ligadas ao processo, mas ignoro a «filiação» da grande maioria dos membros da IAC. Por outro lado, os apoios e subscrições são feitos a título pessoal, evitando um envolvimento pernicioso (do ponto de vista da imagem pública) das organizações.

Estado actual da IAC

Passados 3 meses da constituição da comissão de auditoria cidadã, continua a ser um mistério absoluto para as pessoas interessadas na questão, para a comunicação social e para a sociedade em geral, e até para a generalidade dos participantes e subscritores da iniciativa, o que estará a passar-se dentro da comissão, o que estará ela a fazer à porta fechada, ou mesmo se alguma coisa se passará; ou se terá sido morta e enterrada sem declaração pública de óbito.

A evanescência da IAC é tanto mais desagradável quanto existem 700 pessoas que aprovaram a Resolução e mandataram uma comissão de auditoria; muitas delas até estariam dispostas a trabalhar pela causa; o voto que deram naquela assembleia não foi certamente um mero acto desportivo. A situação assemelha-se perigosamente à que vivemos na actual democracia representativa – uma vez caçado o voto, os mandatários mandam os votantes às urtigas e não prestam contas dos seus actos.

O vício da propriedade privada do conhecimento e do território

Uma vez que a convenção contava com a presença de Eric Toussaint, cujo livro de referência A Dívida ou a Vida não se encontra traduzido em português, a cooperativa cultural Obra Aberta, juntamente com um dos membros do CADPP, tomou a iniciativa de lançar uma subscrição pública para a tradução e publicação duma versão portuguesa da obra e foi apresentá-la aos participantes nos corredores da Convenção. Esperava-se que o núcleo organizador da convenção acolhesse esta iniciativa com entusiasmo, por razões óbvias. Mas não – a iniciativa foi recebida com muito má cara por um conjunto de membros destacados da IAC (deve notar-se que estamos a falar de atitudes individuais, não de uma decisão colectiva), chegando à recusa formal.

Na tarde do dia seguinte à convenção, Maria Lúcia Fatorelli[9] fez uma palestra sobre dívida pública e auditoria cidadã, conforme estava programado desde Novembro. A apresentação desta activista brasileira, possuidora duma notável experiência no terreno e de enorme competência técnica, era uma ocasião única de aprendizagem. Fatorelli oferece o valor acrescentado de ser uma das raras peritas em áreas tão especializadas como economia, auditoria e contabilidade que, apesar disso, continua a pôr a visão política das coisas à cabeça de todas as análises, relegando a parte técnica para o lugar instrumental que lhe cabe. Seria de esperar uma grande divulgação pública da sua presença, já que tão cedo não voltaremos a tê-la por cá. Mas não – o acontecimento foi mantido em segredo, apenas merecendo uma breve referência verbal durante a Convenção. Este secretismo teve o efeito (calculado?) de manter afastado um grande número de activistas da luta contra a dívida que não tinham participado nem sido directamente convidados para o processo de construção da IAC, mas que, pude comprová-lo mais tarde em contactos pessoais, ficaram desolados por terem perdido a oportunidade de ouvir, aprender e debater com Fatorelli. Nem sequer a comissão de auditoria cidadã eleita na véspera compareceu a uma palestra que talvez, finalmente, lhes tivesse aberto os olhos para um conjunto de questões políticas e práticas referentes à natureza duma auditoria cidadã. Resultado: Maria Lúcia Fatorelli deslocou-se a Portugal para falar perante uma dúzia de pessoas.

Na manhã desse mesmo dia a palestra de Eric Toussaint teve a mesma sorte.

Estas duas sessões foram filmadas por um activista que é talvez o único cronista militante e sistemático deste tipo de acontecimentos em Lisboa – foi também ele olhado de soslaio, como já tinha acontecido com os promotores da subscrição para a publicação de Eric Toussaint, e chamado à atenção (a título individual, por um dos membros da IAC) pelo facto de estar a filmar sem ter sido convidado.

Por fim, para cúmulo, um dos elementos da IAC pediu à própria Maria Lúcia Fatorelli que os instrumentos multimédia da apresentação (material muito útil para o esclarecimento público, diga-se) fossem mantidos fora do alcance do público até a IAC «consolidar o seu trabalho» – ao que a própria retorquiu, após uma reacção instantânea de espanto, que aí nada havia a fazer, por se tratar de apresentações multimédia que ela já tinha usado abundantemente em público e posto on-line no site da auditoria cidadã brasileira. Este estranho acto de apropriação de conhecimento foi corrigido recentemente com a publicação no site da IAC dos materiais em questão.

É clara a índole política deste tipo de apropriação do território comum e do conhecimento. Como pode o vício de apropriação do conhecimento e do território comum ser compatível com qualquer espécie de luta contra o processo de endividamento público – que constitui, na essência, um processo de apropriação de toda espécie de bens colectivos, incluindo o conhecimento –, é para mim um paradoxo insolúvel.[10]

Arrisco-me a apontar ainda outro tipo de apropriação, embora este recaia numa categoria bastante mais difusa e subjectiva. A teima – obviamente desnecessária e inútil aos olhos de um espectador exterior – em fazer aprovar ab initio uma posição política conclusiva, em prejuízo de todas as outras hipóteses e teses possíveis, pode ser interpretada como uma «apropriação política» do processo. Deve dizer-se que, ao longo das reuniões, essa vontade de apropriação foi manifestada de forma expressa (e até ligeiramente exaltada) por duas ou três figuras tutelares, perante a aceitação tácita do restante colectivo. O que esta mudez possa significar ao nível das intenções políticas é coisa que jamais saberemos a não ser pela boca dos próprios.

Ora, toda a apropriação subentende um interesse – no sentido latino comum, que é o de juro ou vantagem. Que juro ou vantagem pode resultar da desnecessária mas suficiente apropriação política? De todas as especulações possíveis, a mais plausível parece ser a colocação em posição privilegiada para os jogos de poder, numa futura fase da vida política institucional portuguesa.

Instrumento ou fim?

Há mais de um ano que eu e outras pessoas vimos dizendo que a auditoria cidadã é um instrumento precioso na luta política contra a crise da dívida. Não nos passou pela cabeça que fosse necessário explicar o significado dum conceito aparentemente óbvio: a ideia de instrumento.

As posições e a actuação de um grupo de membros da IAC que tem marcado a sua linha de actuação dão mostras duma total incompreensão da auditoria cidadã como instrumento. É de crer que o grupo de pessoas ali reunido represente uma razoável amostra da população portuguesa e que portanto esta confusão seja comum.

Um instrumento é uma ferramenta que utilizamos para desempenhar uma tarefa – para alcançar um objectivo ou um fim independente do instrumento em si mesmo. Como Albert Camus muito bem demonstrou, embora eu possa utilizar variadíssimos instrumentos para alcançar um futuro proposto (mas nunca garantido), o carácter e a natureza do instrumento escolhido é que irá moldar esse futuro. Por conseguinte os meios justificam e condicionam os fins.

Por outro lado, todos os instrumentos são coisas frágeis – podem avariar-se, ser mal utilizados, etc. Em última análise podemos até avariar intencionalmente o instrumento para deturpar ou boicotar o fim proposto.

Exemplo de «avaria» do instrumento: sendo o dinheiro um instrumento de facilitação de trocas, acumulá-lo em si mesmo constitui uma deturpação dos fins propostos. Ou: aquirir um carro não pela sua natureza instrumental (deslocação) mas sim como ícone de um estatuto social. Ou: nomear para uma instituição que nos foi imposta a contragosto um grupo de profissionais incompetentes, a fim de provar o «erro» dos fins impostos.

Regressando à auditoria cidadã, a sua utilidade e natureza deveriam ser inequívocas: faz-se com e a partir dos cidadãos comuns (não dos membros do poder político ou ideológico) e serve para mobilizar a consciência e a acção directa dos cidadãos em torno da questão do endividamento público e suas consequências sociais. Se este objectivo não se tornar patente logo de início, então é iniludível que o instrumento foi deturpado.

A realidade objectiva diz-nos que até à data a IAC não gerou nenhuma agitação, consciencialização e acção dos movimentos sociais. Logo, temos de deduzir que o instrumento foi deturpado ou avariado. Não nos interessa para nada saber se essa deturpação é intencional ou inocente, programada ou resultante duma ignorância rasa. O que a todos interessa saber é que a «avaria» do instrumento a todos prejudica objectivamente – os fins espectáveis não só não estão a ser alcançados, como nos vemos a braços com um novo problema acrescentado a todos os que já tínhamos: o nosso belo instrumento está quebrado – e não creio que seja fácil de reparar ou passível de substituir.



[1] Este artigo, como outros que escrevi noutros lugares acerca de outros temas, procura remediar dois vícios da cultura portuguesa.
O primeiro diz respeito à falta de apetência pela criação de uma memória colectiva. Reconstituir os antecedentes da realidade presente é trabalho de detective, limitado por vestígios de duvidosa fidedignidade. Mesmo dos acontecimentos mais marcantes (por exemplo, o PREC) não ficou rasto fidedigno – apenas um monte avulso de mitos. Historiador e leitor vêem-se confrontados com um lodaçal em que mito e facto são indiscerníveis; o cidadão comum, na procura duma identidade, tropeça numa mitologia que teve início nas construções imaginosas dos ministérios da propaganda salazarista e se perpetua na crónica avulsa e mitómana dos meios de comunicação social pós-25 de Abril. Esta debilidade da memória colectiva, do registo, implica uma espécie de vivência pré-histórica e a dificuldade em dar passos adiante (adiante de quê, se o percurso se vai diluindo?).
O segundo vício diz respeito à falta de apetência pelo inquérito de campo e pelo estudo objectivo da realidade. Tudo se baseia em vagas impressões subjectivas dos acontecimentos. Ora, não é possível lidar eficazmente com o presente quando o retrato que se faz da realidade tem por alicerce um nevoeiro difuso de impressões.
No caso particular desta crónica: Por falta de apontamentos e por causa da memória frágil do autor, haverá forçosamente imprecisões e lacunas que muito beneficiariam com a colaboração de outras testemunhas dos acontecimentos – colaboração essa que agradecemos desde já.

[2] O Grupo contra a Dívida (que viria a dar origem ao CADPP) também enviou um representante (o autor desta crónica) à Universidade de Verão do CADTM, na Bélgica; a escolha, que derivou do facto de eu ter bastante trabalho feito sobre a dívida e a auditoria cidadã ao longo de um ano e ser correspondente e tradutor dos artigos do CADTM, não terá sido a mais acertada, visto eu ter pouca ou nenhuma vocação para criar laços de influência e contacto institucional.

[3] A utilidade histórica desta crónica resulta muito diminuída por eu não apresentar a maioria dos documentos. Existe uma razão de lealdade para esta falha – aceitei de boa-fé as condições impostas à minha participação na IAC, portanto vejo-me obrigado a manter um certo nível de reserva; a abertura documental (estou a referir-me à IAC e não ao Estado...) ficará condicionada à vontade de abertura dos «dirigentes» da IAC.

[4] Ana Benavente – militante do PS; ex-secretária de Estado da Educação do XIII Governo Constitucional, 1995-1999, presidido por António Guterres.

[5] Eric Toussaint – dirigente do CADTM; autor e co-autor de diversas obras sobre a dívida e a auditoria cidadã; membro da comissão de auditoria do Equador.

[6] Costas Lapavitsas – professor de economia na SOAS (School of Oriental and African Studies), Universidade de Londres; promotor da campanha por uma Comissão de Auditoria à Dívida Grega; colunista no jornal The Guardian e participante no documentário Debtocracy.

[7] Creio que existe um registo vídeo algures na Internet.

[8] Uma vez que a palavra «cidadã», na expressão «auditoria cidadã», é suficientemente autoexplicativa e dispensa o recurso ao dicionário etimológico, é de crer que a teima dos convidados em lembrar que sem mobilização cidadã não existe auditoria cidadã resulta do facto de eles terem «cheirado» no ar a desorientação da IAC a este respeito.

[9] Maria Lúcia Fatorelli – contabilista e auditora; membro da Auditoria Cidadã da Dívida (Brasil); membro da comissão de auditoria do Equador.

[10] Outro exemplo deste tipo de atitudes vai mais além do estrito âmbito de trabalho da IAC, assumindo contornos de soberania sobre a cena política nacional: Em inícios de Novembro, pouco antes da conferência de imprensa e convocatória da convenção da IAC, calhou dar-se a formalização do CADPP, nascido de um grupo de pessoas que há muitos meses (muitos mais do que a idade da IAC) se reunia publicamente e com grande espírito de abertura para debater a crise da dívida e preparar algumas acções. Este acontecimento foi zurzido e visto como o diabo por parte de alguns membros da IAC, que o declararam fracturante, «inoportuno» e «causador de ruído». Convenhamos, era compreensível esta preocupação com o ruído, vinda da parte de um grupo ou tendência dentro da IAC que se preocupava em actuar de forma invisível e silenciosa.

 


Nota à 4ª revisão: por indicação gentilmente dada por um dos seus membros, retirei a referência a membros do movimento renovador na formação da IAC – lapso do qual peço desculpa, assim como de outros do mesmo género que possam ainda constar do texto e que corrigirei prontamente logo que receba informação e documentação atinente.

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