19/02/2012

A Grécia luta em 2012 como a Espanha em 1936 – pelos povos da Europa!

autores: 

Discurso de Sonia Mitralia, membro do Comité Grego contra a Dívida e da Iniciativa das Mulheres contra a Dívida e as Medidas de Austeridade, pronunciado no encontro de Marselha de 17 de Fevereiro 2012, organizado pela campanha francesa «por uma auditoria cidadã da dívida pública».


 

O curso da História acelera e os acontecimentos cataclísmicos dos últimos dias na Grécia são de molde a convencer até os mais reticentes: a Grécia tende a ser hoje em dia para a Europa de 2012 o que a Espanha foi para a Europa de 1936! Esta constatação aparentemente ousada não é uma tirada romântica. Não, é um facto imposto pelos nossos governantes, pois quem nos assedia a tempo inteiro desde há dois anos são as Merkel e os Sarkozy, o FMI e os banqueiros, a reacção neoliberal de além-fronteiras nacionais, os que optaram por transformar a Grécia num laboratório das suas políticas desumanas e os Gregos em cobaias da sua terapia de choque.

É mais que tempo de todos nós, povos da Europa, tomarmos à letra o que nos dizem os nossos Merkozy e a sua Troika, e de agirmos em consequência. Aceitemos esse desafio e respondamos sem hesitar que a Grécia vai tornar-se um caso/teste também para nós, para o movimento dos trabalhadores, para os movimentos sociais e feministas, para os povos e os explorados de toda a Europa! Sim, façamo-los compreender que Sim, somos todos gregos, pois estamos todos plenamente conscientes de que o combate do povo grego é definitivamente o combate de todos nós. Que se eles conseguirem quebrar as resistências e submeter o povo grego, a seguir será a vez de todos os outros povos europeus, um após outro, serem postos a ferros…

Talvez se recordem que no início eles nos contavam tretas do género «trata-se de um caso único e especificamente grego, devido ao facto de os Gregos serem uns preguiçosos, dados à corrupção e à mentira». De então para cá, pudemos ver que o buraco negro da dívida não é especificamente grego, que não é devido à suposta… hipertrofia do Estado grego, que é igualmente americano, francês, italiano, japonês. Em suma, é tipicamente capitalista e a crise é… sistémica.

Mas atenção, cuidado com as frases feitas e os clichés, que são inadequados para descrever a actual realidade grega. Será que ainda podemos falar de austeridade, ainda que a classifiquemos de draconiana, quando os salários e as pensões baixaram na Grécia 40, 50 ou mesmo 60%? Quando o poder de compra da esmagadora maioria da população sofreu um corte de 50, 60 ou mesmo 70%? Quando a classe média desse país está arruinada e numa depauperização galopante? Quando os novos salários já não chegam aos 417 euros [na Grécia era quase o dobro antes da crise] e as novas pensões de reforma os 320 euros? Tratar-se-á de simples «rigor» quando um em cada dois jovens gregos está no desemprego e o desemprego geral chegou aos 25%? Como é possível falar de simples… «sacrifícios passageiros» quando a subnutrição já provoca razias na população infantil das escolas primárias e a fome acossa até a pequena-burguesia das cidades gregas? E como pode alguém dizer que tudo isso é necessário para «pôr em ordem as finanças» da Grécia, quando os ministérios admitem cinicamente que as políticas impostas pela força à Grécia falharam, tendo por único resultado o afundamento do país numa monstruosa recessão progressiva, e que a dívida grega jamais poderá ser reembolsada? Será isto um caso de simples sadismo da tristemente célebre Troika, ou antes uma guerra aberta e declarada do capital contra o mundo do trabalho? A realidade quotidiana obriga-nos a admitir: Sim, aquilo a que assistimos na Grécia é uma verdadeira guerra dos poderosos contra os oprimidos, dos muito ricos contra todos os outros. E ao mesmo tempo, não nos esqueçamos disto que é muito grave: assistimos à ressurreição do pior neocolonialismo quando vemos a Grécia humilhada e subtraída de praticamente toda a soberania nacional, tratada pelos seus pretensos… parceiros europeus como uma autêntica colónia, um protectorado sob tutela, dirigida por um Gauleiter [denominação alemã para um dirigente provincial] da senhora Merkel e do senhor Schaeuble…

E os Gregos, que fazem eles? Cuidado, não acreditem no que vos contam dos Gregos. Os vossos meios de comunicação social são como os nossos: a realidade que eles vos descrevem é totalmente irreal. Ao falarem da Grécia actual, fazem questão em afirmar que existe em Atenas um governo de União Nacional apoiado por quatro quintos dos representantes do povo grego. Se fôssemos a acreditar nesta descrição, teríamos de concluir que os Gregos são um povo de masoquistas que adoram ser maltratados…

Evidentemente a realidade é outra. Uma dúzia de greves gerais em menos de dois anos, incontáveis lutas e greves muito duras em todo o país, um clima quase insurreccional desde há meses, um movimento dos Indignados – os Aganaktismeni gregos – que varreu toda a Grécia durante 3 meses, confrontos muito violentos com as forças da repressão, ministros e deputados que já há 10 meses não ousam sair à rua, para não serem vaiados ou mesmo esbofeteados pelos transeuntes, um parlamento sitiado com frequência crescente por centenas de milhares de manifestantes que mais tarde ou mais cedo acabarão por tomá-lo de assalto, … eis um breve resumo do que é a rotina quase quotidiana na Grécia desde há muitos meses.

Mas tudo isto são apenas os abalos premonitórios do grande sismo social que vem aí. De facto, um olhar mais atento revela que a cólera popular atinge actualmente recordes históricos, que o país é como um vulcão social preste a explodir. De resto, as sucessivas sondagens são muito eloquentes. O apoio popular a este governo dito de União Nacional não chega aos 8%, enquanto o conjunto dos partidos à esquerda do PASOK social-democrata sobe acima dos 50%! Tudo muda a uma velocidade alucinante e a paisagem política grega está a sofrer uma reviravolta sem precedentes, porque sectores inteiros da sociedade procuram soluções radicais contra a crise e o empobrecimento galopante. Vejamos um exemplo que ilustra perfeitamente esta situação excepcional, fazendo lembrar cada vez mais o que se passou num certo período entre duas guerras no nosso continente. O PASOK, que, há dois anos, teve um triunfo esmagador nas eleições, conquistando a percentagem recorde de 45%, tem agora segundo as sondagens menos de 10%, enquanto um grupúsculo de assassinos neonazis ronda os 3%! Sim, a sociedade grega está já a caminho de ensaiar a sua própria República de Weimar…

Então, que fazer? A primeira coisa a fazer é gritar alto e bom som que os Gregos não devem pagar esta dívida que os sufoca e que não é deles. Deve ser imediatamente suspensa. Porquê? Para fazer aquilo a que obriga a lei internacional, a ONU, uma quantidade de tratados internacionais, aliás assinados por todos os nossos governos: investir na satisfação das necessidades elementares da sociedade grega – na saúde, na educação, nas infraestruturas, nos serviços públicos, nos desempregados, nas crianças esfomeadas, nas famílias monoparentais, nas mulheres que são agora obrigadas a assumir gratuitamente e em família todas as tarefas assumidas pelos serviços públicos antes do seu desmantelamento e privatização – as quantias astronómicas consagradas ao serviço da dívida pública.

Por quanto tempo? Pelo tempo que for necessário para realizar uma auditoria cidadã da dívida, a fim de identificar a sua parte ilegítima, a qual deve ser anulada e não reembolsada. E tudo isto deve ser feito recusando cair na armadilha das chantagens políticas que repetem incessantemente que uma tal política radical leva automaticamente à saída do euro e da União Europeia, a uma crise nacional inevitável…

Não, não e não. Recusamos pagar esta dívida e ao mesmo tempo permanecemos na zona euro. A razão principal é simples: porque queremos combater convosco, todos juntos, de mãos dadas com todos os trabalhadores deste continente, para pôr fim a esta Europa do capital, das Merkel e dos Sarkozy. Porque queremos criar e amplificar a chamada «crise sistémica» desta União Europeia antidemocrática e anti-social dos ricos. Sim, apenas nos resta uma perspectiva, a única realista e exequível: a do combate comum dos oprimidos de toda a Europa. Camaradas, mais do que nunca a união faz a força. Unamo-nos, pois todos juntos conseguiremos mudar este mundo em vias de apodrecer. Antes que seja demasiado tarde… E lembrem-se: Se não formos nós a fazê-lo, quem há-de ser? Se não for agora, então quando será?...

Fontes e referências: 

Discurso de Sonia Mitralias; Marselha, 17.02.2012 – original em francês neste mesmo site. Tradução: Rui Viana Pereira

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