06/02/2012

Notas de euro: valor real ou comprovativo de dívida?


O verdadeiro valor das notas de euro...

Uma notícia que demonstra de forma indirecta a verdadeira natureza da moeda que utilizamos está a circular a internet. Um artista Irlandês, Frank Buckley, construiu uma casa com notas «descomissionadas», o que quer dizer, notas que foram retiradas de circulação e que portanto foram destruídas. Mas ao verificar esta história que conta a aventura de um artista Irlandês que perdeu a casa graças à crise e que decidiu construir uma casa com «tijolos» feitos de notas rasgadas, podem-se apurar factos sobre o euro que para muitos ainda são completamente desconhecidos.<--break->

 
Frank Buckley e os 'tijolos' feitos de notas rasgadas

A intenção do artista foi denunciar as falhas do sistema de empréstimos que precipitou a crise financeira de 2008. «As pessoas estavam a injectar mil milhões em casas que agora não valem nada», disse ele, acrescentando que «queria criar algo a partir do nada». Mas o mais interessante desta história não é o seu factor simbólico, mas sim os factos que podemos apurar sobre o próprio sistema monetário dentro do qual estamos inseridos. Ora, a maioria das pessoas ainda acredita que as notas de euro são inerentemente valiosas, facto que é exemplificado através de afirmações como as que defendem que os problemas económicos são fruto de «não haver dinheiro suficiente». Longe disso. As notas de euro estão inseridas dentro dum fluxo, ou seja, um ciclo com princípio, meio e fim; no princípio, são emitidas pela Banco Central Europeu (através das suas sucursais nacionais); posteriormente são emprestadas a outros bancos privados com taxas de juro baixas, sendo depois emprestadas e injectadas na economia real a taxas de juro mais elevadas. Durante este período as notas são utilizadas pelo público em transacções económicas, período que corresponde ao seu ciclo intermédio. Estes factos já são conhecidos duma grande parte da população.


Todas as notas de Euro têm uma referência
(cuja função é desconhecida pela maioria da população)

O que a maioria não sabe é que estas mesmas notas têm um final de vida, ou melhor, que estas chegam ao fim do seu ciclo. Quando voltam às mãos do BCE, ou às suas agências nacionais (no caso de Portugal, o Banco de Portugal), as notas são rasgadas, mas somente depois de a sua referência única ter sido tomada em conta, pois esta referência demonstra qual a dívida que está a ser paga no acto da destruição da mesma. Isto por sua vez leva à conclusão que as notas de Euro não representam um valor real; elas são nada mais nada menos do que um comprovativo de uma dívida. Só através de exemplos como este, do artista Irlandês, ou através da história sobre o que acontece às notas danificadas é que podemos estabelecer certos factos sobre este processo, como exemplifica esta reportagem da SIC, que admite que o processo de destruição das notas não pode ser filmado «por razões de segurança».


O exterior da casa construida com notas de Euro de Frank Buckley

A entidade que destrói as notas de euro em Portugal é o Banco de Portugal, mas este processo é feito em segredo; mostrar as imagens de euros a serem queimadas seria, em primeiro lugar, visto como um sacrilégio pela multidão que passa a sua vida a tentar angariar o que pensam ser valor real. Mas em segundo, e esta é a verdadeira razão pela qual o público não pode testemunhar o processo de «descomissionamento», é que se o vissem, começariam a questionar a verdadeira natureza da moeda que utilizam. O processo através do qual o Banco de Portugal rasga notas, ou seja, o momento em que declara que uma certa dívida foi paga, não são para os olhos dos profanos que nada sabem sobre o sistema monetário moderno. Se soubessem, mais rapidamente se aperceberiam da natureza fraudulenta da «dívida pública», e mesmo da «crise da dívida soberana», que nada mais é do que um processo através do qual instrumentos financeiros são utilizados para afectar a dinâmica da detenção de propriedade privada e do valor real (terra, casas, apartamentos, ouro, prata, produtos de consumo, etc.) através da utilização de valor fictício (notas, moedas). Esta dinâmica tem, claro, sempre beneficiado a classe dominante e os chefes de indústria, mas acima de tudo beneficia inevitavelmente quem tem o poder de emitir a moeda (os bancos) e de decidir o valor da mesma através da inflação e deflação (os bancos centrais).

Fontes e referências: 

João Silva Jordão, in Casa das Aranhas, 01-02-2012

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