06/12/2011

O cheiro a ditadura empesta a Europa

Os últimos 6 dias marcam a entrada da Europa numa nova fase histórica. Uma fase aterradora, em que o poderio económico e financeiro deixou de se expressar de forma indirecta através de discursos políticos enviesados. As intenções de domínio directo e pela força sobre toda a Europa acabam de ser claramente expressas, na mais clássica linha do discurso ditatorial sem rebuço, pelo casal Merkozy.

O casal Merkozy decreta o fim da UE e o início do reinado do «eixo franco-alemão»

Na passada quinta-feira assistimos a um discurso histórico transmitido em directo, via TV, do presidente Sarkozy. Dizia ele que é preciso mandar abaixo os actuais tratados da União Europeia (UE) e os pressupostos que a sustentam, para a «refundar» com base em novos tratados ditados pelo «eixo franco-alemão»; e mais, instituir «um governo económico» europeu.

Sarkozy não estava a expor cortesmente a ideia à consideração dos cidadãos europeus – estava, pura e simplesmente, a informar acerca do que  ele e a chanceler Merkel já decidiram.

Em rodapé, enquanto corria este discurso, lia-se uma afirmação clara do ministro da Economia alemão: os países europeus que não cumprirem os ditames franco-germânicos perderão automaticamente a soberania. Confirmava-se com esta notícia simultânea em rodapé o entendimento dos dois governos (alemão e francês) para a dominação da Europa.

A História e a reescrita da História

No dia seguinte, quem, por incredulidade, procurou rever a notícia na versão on-line das televisões portuguesas teve uma surpresa: o discurso fora remontado, suavizado, e a notícia de rodapé desaparecera. Vários órgãos de comunicação on-line «corrigiram» as notícias do dia anterior; algumas delas foram mesmo retiradas; quem se deu ao trabalho de fazer bookmarks encontrará uma notícia lacónica: «error 402, page not found».

Confirmamos assim o que já sabíamos há muito: estamos a viver um pesadelo orwelliano; a História é reescrita no espaço de 24 horas, fazendo-nos duvidar dos nossos próprios sentidos.

No entanto, passadas mais 24 horas, provou-se que a diligência da comunicação social mainstream, que mais apropriadamente deve ser designada por «voz do dono», foi inútil – a dupla Merkel/Sarkozy volta a público para reafirmar a determinação de «refundar» a UE a partir dos ditames do eixo franco-alemão. Vejamos alguns trechos desta partitura a duas vozes: [dnoticias.pt, 4/12/2011]

Sarkozy: «Um verdadeiro governo económico, esta é a nossa visão sobre o futuro da zona euro e a futura reforma dos tratados».
Merckel: «Não estamos apenas a falar sobre uma união orçamental, estamos prestes a realizá-la».
Sarkozy: «Queremos um novo tratado que deixe bem claro a todos os membros da Eurozona [entenda-se: os outros governos, não a Alemanha+França] que o que aconteceu não volta a repetir-se».
Merkel: «uma união fiscal» – ou seja, orçamento de Estado, receita fiscal e despesa de cada país passam a ser ditados em Bruxelas (aliás Paris ou Berlim ou FMI), à margem dos parlamentos locais ou de qualquer outra instituição de poder legítima e democrática.

Em vez da força dos canhões, a eficácia do bypass

Como Jérôme Duval demonstra no seu artigo Golpe de Estado contra a democracia, a ditadura está claramente em curso, mas os poderes dominantes da Europa nem se dão ao trabalho de esmagar as instituições democráticas para imporem uma oligarquia. Limitam-se a permitir que os parlamentos nacionais continuem a exercer o seu circo, para gáudio do povo, e nomeiam directamente os novos governos da Grécia e da Itália. Entretanto, os partidos de extrema direita são eleitos nalguns países (caso da Hungria) e mesmo quando não têm mandato ou legitimidade democrática não se coibem de imiscuir-se directamente na governação (caso da Grécia).

Terminou o ciclo dos governos-sombra, constituídos por tecnocratas nomeados pelo FMI e pela Comissão Europeia, encarregues de manobrarem as marionetas dos governos locais. Entrámos num novo ciclo em que os governos são directamente ditados pelo eixo político franco-alemão, ou, mais directamente ainda, pelas instituições financeiras e bancárias responsáveis pelo início da crise.

Em Portugal já tínhamos assistido ao espantoso descaramento de um governo demitido (o de Sócrates), portanto constitucionalmente ilegítimo para efeitos de negociação internacional, realizar negociações multilaterais com a Troika, pondo fim à soberania nacional e violando uma dúzia de secções da Constituição. Quando os portugueses foram chamados às urnas de voto, já a perda de soberania e os acordos multilaterais ilegítimos eram um facto consumado.

A este governo usurpador segue-se o de Passos Coelho – o primeiro-ministro que até hoje mais despudorada e simploriamente exerceu a sabujice e a submissão. Perante as declarações bombásticas do casal Merkozy, o actual primeiro-ministro português acorre pressurosamente a verter algumas pérolas:

«Portugal perdeu parte da sua soberania pois teve de pedir muito dinheiro emprestado» – o que constitui uma magistral inversão dos reais factores de causa e efeito.

«Esse governo económico que precisamos de construir na Europa é essencial para que a Europa possa ser solidária» – como se o governo da Europa não estive já sujeito à ditadura dos interesses económicos e os governos locais não fossem já meros títeres, com os maus resultados e a falta de solidariedade que temos à vista.

Foi este mesmo primeiro-ministro que, logo no dia a seguir à aprovação do orçamento de Estado, veio calmamente dizer à televisão que este orçamento «pode não ser» suficiente para endireitar a economia; mas, não se preocupem, ele já está a preparar mais medidas de austeridade e um orçamento diferente daquele que o parlamento (onde ele beneficia de maioria absoluta) aprovou, estando preparado para executar essas acções já em janeiro!

Os primeiros indícios de genocídio e eutanásia

Este cheiro a ditadura, bem conhecido de todos os europeus com mais de 68 anos de vida, está a alastrar a uma velocidade assustadora. Alguns sintomas clássicos, como o racismo mais extremo, começam a revelar-se. Para não alongar, apenas dois exemplos:

«O Estado [português] gasta 290 milhões de euros por ano com os cerca de 10.300 doentes dependentes de hemodiálise [...] 130 milhões são pagos às empresas privadas, que concentram 95% dos serviços nesta área através de convenções» [in blog da hemodiálise]. Ora algumas das empresas privadas que prestam esse serviço ameaçam passar a recusá-lo a breve prazo, por considerarem que os custos de substituição dos filtros das máquinas não são cobertos pela comparticipação do Estado; até à data não temos notícias de que o Ministério da Saúde tenha dado resposta a esta situação. Uma vez que os doentes em questão, não lhes sendo filtrado o sangue, não sobrevivem mais de 24 horas, ou seja, não têm saúde nem tempo de vida suficientes para protestarem, esta medida equivale a uma declaração de pena de morte imediata e sem apelo; ou eutanásia, se preferem.

Entretanto, o parlamento húngaro aprovou uma nova lei ilegalizando os sem-abrigo, os indigentes, os ciganos e várias outras camadas da população que não vivem segundo o modelo oficial; estas pessoas, quando sejam apanhadas pela polícia, ou pagam uma multa de 450 euros ou são presas. Por outro lado, o mesmo parlamento aprovou uma lei que institui o trabalho forçado nas prisões. Obviamente os sem-abrigo – que segundo os números oficiais serão para cima de 50.000, 10.000 dos quais em Budapeste – não podem pagar a multa e portanto serão presos. Mas, sejamos realistas, como arranjar instalações prisionais para dezenas de milhar de pessoas, guardá-las, alimentá-las? A solução só pode ser uma, a clássica: campos de concentração e trabalhos forçados.

Estas medidas de extrema direita e muitas outras que grassam pela Europa acabarão por levar toda a população europeia a um nível de insatisfação e revolta que, muito provavelmente, acabará por colocá-la na mesma disposição em que vemos os povos do Norte de África e da Grécia: o enfrentamento total. Quando assim acontecer, talvez renasça alguma esperança; e haverá certamente pelo menos um, de seu nome Marx, que rebolará na tumba e dirá, com um risinho à socapa: eu bem disse...

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