Nicarágua, 2018 - a brutalidade da repressão e o carácter pacífico da resistência popular

mercenário pró-Ortega numa escola

Milhares de pessoas têm saído à rua na Nicarágua, em protesto contra as políticas do governo e a situação social e económica. Estes acontecimentos iniciaram-se em abril-2018 e tiveram como resposta do Governo, em vez de diálogo e negociação, uma repressão indiscriminada e feroz exercida por milícias fiéis ao presidente Daniel Ortega, criadas à margem das forças militarizadas do Estado. O saldo deste confronto, em meados de julho-2018, era já de pelo menos 210 mortos.

O repentino surto de protestos e revoltas da sociedade civil é, para usar as palavras de diversos comentadores, súbito e inesperado. No entanto, se atendermos ao desenvolvimento económico, social e institucional da Nicarágua na última década, percebemos que existiam boas razões para que o «inesperado» acontecesse.

O confronto actual opõe as forças fiéis ao actual presidente e uma grande parte da população; a repressão exercida pela polícia e pelas milícias promovidas por Ortega assume um carácter desproporcionado e feroz.

Três interpretações possíveis

Segundo Tomas Andino Mencia [14], existem três interpretações dos acontecimentos:

  • A interpretação da direita e das fontes ligadas aos interesses norte-americanos afirma que tudo resulta da existência de um governo «socialista» ou «de esquerda», que «por natureza» seria ditatorial e inimigo da democracia. Este argumento colide frontalmente com a realidade: a propriedade privada da terra, dos recursos minerais, das fontes de energia e de outros sectores estratégicos é omnipresente; uma boa parte da população, obrigada a trabalhar no mercado paralelo, está privada de um sistema de segurança social universal; 40 % da população encontra-se abaixo do nível de pobreza, o que denuncia um agravamento da redistribuição da riqueza; o governo de Ortega tem aplicado um vasto leque de políticas neoliberais semelhantes às adoptadas por outros governos neoliberais e advogadas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Estes e muitos outros factos desqualificam a interpretação de direita.
  • A interpretação do próprio governo acusa as manifestações de jovens de serem «pequenos grupos de extrema direita» orquestrados pela CIA para derrubar o actual regime. Este argumento esbarra na realidade factual: não estamos em presença apenas de jovens estudantes em protesto, são vastos leques da população, em diversos estratos sociais que vão desde os camponeses até às camadas urbanas, que estão em luta; nalguns casos trata-se de cidades inteiras que foram assaltadas pelas milícias apoiantes de Ortega. Se não se tratasse de um movimento cívico espontâneo, se de facto fosse uma acção orquestrada de fora ou por organizações políticas de extrema direita, a repressão das forças militarizadas do Estado poderia exercer-se de forma específica, localizada, e em colaboração com as populações locais (conforme uma experiência de muitas décadas de luta da frente sandinista), e não uma repressão indiscriminada e sangrenta sobre a própria população civil. É preciso perguntar como foi possível criar do dia para a noite um exército de mercenários a mando de Ortega; e como é possível que a Polícia obedeça às ordens das milícias, à margem das instituições oficiais e fora da esfera de comando militar do Estado. É evidente que a construção das milícias, que é um processo complexo e moroso, foi secretamente preparada com antecedência, para garantir a perpetuação no poder de Daniel Ortega e Rosario Murillo, sua companheira.
  • Uma interpretação de esquerda que parte parte da evolução política, social e económica do país e acusa o carácter ditatorial do regime de Daniel Ortega e sua esposa; e que mostra com clareza factual o carácter feroz e indiscriminado da violência exercida pelas forças leais a Ortega, demonstrando assim o carácter ditatorial do poder instituído por Ortega. Adiante tentarei sumariar alguns dos factos que sustentam esta interpretação.

Os acontecimentos que despoletaram a revolta popular

Segundo a propaganda de Daniel Ortega, uns quantos grupelhos de estudantes saíram à rua em protesto, em julho-2018. Na verdade a revolta popular começou dois ou três meses antes, a propósito de um projecto de alteração das pensões de reforma. A força da oposição popular obrigou Ortega a suspender o projecto e a pedir a intermediação dos bispos, para um suposto diálogo que, tanto quanto pude apurar, não se realizou.

Antes dessa data, nos dois últimos anos, já se verificavam profundas desavenças entre o poder central e os camponeses – esses mesmos graças aos quais, em muitos casos, a FSLN conseguiu derrubar a ditadura dos Somoza, há 30 anos. Estão em causa os planos do governo para abrir um novo canal, expropriando enormes áreas rurais, impondo a monocultura e dando terras e negócios de mão beijada aos investidores estrangeiros.

Repressão brutal e indiscriminada

Às reivindicações populares, Ortega respondeu imediatamente com a repressão, não tentando sequer simular o diálogo.

A repressão é indiscriminada e brutal, exercida sobretudo por milícias mercenárias à margem do Estado. Existem esquadrões em motorizadas, esquadrões em carrinhas de caixa aberta ou fechada, franco-atiradores que disparam sobre qualquer coisa que se mova nas ruas e nas casas. Os esquadrões da morte percorrem a pé os quarteirões e disparam indiscriminadamente para dentro das casas, sem cuidar se lá estão crianças, velhos, deficientes … [Nota: muitos dos cenários aqui descritos não serão documentados, pois baseiam-se em cartas pessoais cuja identidade e segurança é necessário preservar, face à perseguição das milícias fiéis a Ortega.]

Várias filmagens de rua vão aparecendo na rede digital, mas também é verdade que muitas delas desaparecem rapidamente e alguns murais pessoais no Facebook já estão inacessíveis. Assim, torna-se difícil a aferição das imagens, datas e locais. Em vários lugares do país as redes de comunicações foram cortadas, o que nos impede de seguir os acontecimentos locais em tempo real.

Na análise de Luis Carrión [1], «A pressão nas ruas e o fracasso da repressão foram os factores que levaram Ortega a pedir aos bispos que organizassem o diálogo actualmente em curso. Daniel Ortega nunca antes quis dialogar sobre a corrupção das instituições, os abusos de poder, as fraudes eleitorais, a venda da soberania nacional a um aventureiro chinês, a privatização dos fundos da Venezuela e o uso do Estado como instrumento de dominação política e extracção de rendas corruptas a todos os sectores do país».

O massacre dos jovens estudantes da UNAN (Universidade Nacional Autónoma da Nicarágua)

Várias centenas de estudantes viveram 12 horas entrincheirados, debaixo de fogo das milícias. O poder de fogo destas milícias é desproporcionado para enfrentar uma população civil em protesto, revelando claramente a intenção de esmagar as populações pelo terror e sem atender a quem são as vítimas. Esgotados e com numerosos feridos, os estudantes refugiaram-se numa igreja, onde continuaram debaixo de fogo, juntamente com os padres e alguns médicos que valorosamente foram acudir-lhes. Uma coluna com algumas centenas de populares voluntários tentou acudir aos estudantes, mas foi-lhes barrado o caminho pela Polícia, que obedece às ordens dos esquadrões da morte.

Foi publicado um vídeo em que os estudantes, escondidos por detrás de barricadas de pedra, ao fim de muitas horas debaixo de fogo e não vendo saída para a sua situação, despedem-se ao telefone das suas famílias.

A resposta pacífica das populações

Vários testemunhos traçam um quadro impressionante da resistência popular. Não se trata apenas da contestação massiva ao regime, seja nas ruas, seja nas redes digitais: salta à vista a abnegação, o espírito de sacrifício das populações, que de mãos nuas insistem em fazer frente à Polícia e a ao armamento das milícias armadas. Esta abnegação é tanto mais notável quanto é certo que muitos ex-combatentes sandinistas continuam a ter armas enterradas no quintal, mas não fazem uso delas. A decisão de actuar de forma pacífica, de não responder às balas com poder de fogo, apesar de não ser reivindicada por palavras de ordem, é poderosamente afirmada na prática.

«Me sorprende la historia de nuestra gente. Primero, hicieron una revolución armada. La primera revolución popular armada triunfante que hubo en nuestro continente fue la revolución sandinista. Y ahora, cuarenta años después, nuestra gente está decidida a obtener una nueva victoria contra otra dictadura. Pero esta vez será una victoria sin armas. Eso sólo lo hace un pueblo que tiene una capacidad maravillosa de encontrar sus propios caminos y de concertarlos de una manera absolutamente fantástica.» [Julio López Campos, «Tengo la certeza de que derrotaremos esta dictadura», Julho-2018]

«Tengo dificultades para entender cómo en Monimbó, por ejemplo, no ha aparecido una sola bomba de contacto, que es un instrumento más ofensivo. Y no porque no hayan los elementos para hacerlas, y ellos las saben hacer y las saben usar. Hasta ahora tampoco han aparecido fusiles. Más asombroso todavía es que allá en el campo, donde la gente tiene su 38, su 22, sus escopetas, tampoco aparecen. El pueblo nicaragüense está decidido a luchar y ha decidido hasta ahora que quiere obtener la victoria sin las armas. Esa determinación requiere de mucha fortaleza.» [idem]

«He estado conversando con personas que tienen relación con los muchachos que están atrincherados en Managua en la UNAN (Universidad Nacional Autónoma). No quieren salir, no quieren entregar sus barricadas, están totalmente decididos a que, les pase lo que les pase, irán hasta el final. Veamos también la gente que está en los tranques. Defender un tranque armado en una carretera es una cosa, pero defender un tranque desarmado contra gente que pretende asesinarte es otra. Para hacerlo, para mantenerse en ese tranque, en esas trincheras, se necesita tener una voluntad férrea difícil de explicar.» [idem]

Fontes e referências: 

[1] Luis Carrión, «El Dialogo y la Lucha Popular», 30-05-2018 – uma análise sobre a relação de forças no confronto entre as forças cívicas e o regime de Daniel Ortega, à data de publicação do artigo.

[2] Verbete na Wikipedia: «Sandinismo».

[3] Nadine Lacayo, «Estado de Sitio – SOS Nicaragua», 3-06-2018.

[4] Sobre a Frente Sandinista: ver pt.wikipedia.org ; mais informações, ainda na Wikipedia, em es.wikipedia.org.

[5] Sobre a evolução política, social e económica da Nicarágua desde 1979: vários artigos de Éric Toussaint, um dos quais publicado neste caderno.

[6] O Movimiento Universitario 19 de Abril publicou alguns apelos e vídeos no seu mural. No entanto parece ter deixado de publicar a 15-Julho-2018 (ou terá sdo silenciado).

[7] Vídeo com os estudantes da UNAN debaixo de fogo cerrado. [Nota: não aconselhamos estas imagens aos leitores emocionalmente mais frágeis. Tão-pouco mostramos outros vídeos do mesmo tipo, para não contribuirmos para transformar a situação dramática dos nicaraguenses num espectáculo mediático e banal.]

[8] Vídeo curto (30 segundos) que dá uma ideia muito clara da enorme força das milícias, do seu imenso poder de fogo e da forma como a Polícia se mistura com estas forças fora-da-lei. Trata-se do assalto à população da cidade de Matagalpa.

[9] Marcha de 12-Julho-2018, vídeo de 10 segundos. Dá-nos uma ideia do volume da agitação popular na Nicarágua. Outro testemunho ainda mais explícito da mesma marcha, vídeo de 4 minutos.

[10] Marcha de 30-Maio-2018, com centenas de milhares de pessoas nas ruas: vídeo de 2 minutos. Para termos uma ideia da magnitude relativa destas manifestações, recordemos que a Nicarágua ronda os 5 a 5,5 milhões de habitantes.

[11] Uma descrição vívida do estado de espírito da população assediada, publicada em página pessoal.

[12] Entrevista com Luis Carrión Cruz, sobre o carácter autoritário do regime de Daniel Ortega e a necessidade de o depor, emitida pelo canal Confidencial, 13-Julho-2018. Luis Carrión Cruz é  ex-comandante sandinista e ex-ministro.

[13] Julio López Campos, «Tengo la certeza de que derrotaremos esta dictadura», Envio, n.º 436, Julho-2018.

[14] Tomas Andino Mencia, «¿Qué pasa en Nicaragua? Un enfoque desde la izquierda crítica», in Rebelión, 25/04/2018.

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