Está em curso a consolidação de novas formas de poder e governação na Europa. Que essas novas formas são de inspiração neoliberal ou ultraliberal, está bem à vista. No entanto essa evidência não basta para despertar as consciências e lançar a resistência plena.
O problema é o seguinte: novas formas de estruturar o poder autoritário, ditatorial, estão em curso, mas elas são de facto novas, diferentes de tudo o que conhecemos historicamente; e nós ainda não temos nome para elas. Ora, como se sabe graças ao estudo os fenómenos da percepção e da consciência, uma realidade sem nome é uma realidade que tende a não existir do ponto de vista da consciência. Olhando com atenção para a forma como a população em geral, e muitos activistas de esquerda em particular, olham para a realidade actual e interagem com ela, torna-se evidente o prejuízo tremendo provocado por esse vazio conceptual.
O facto de as novas formas de poder ditatorial e autoritário serem inefáveis deriva essencialmente de dois factores:
Os comentadores capazes de perceber que, plenamente definido ou não, já existe em acto um poder radicalmente antidemocrático, vão tentando denominá-lo, mas oscilam entre as expressões mais variadas – «fascismo financeiro», «ditadura financeira», etc.
Por um lado, o facto de muitas das características dos actuais poderes coincidirem com fenómenos históricos já nossos conhecidos, definidos e com nome próprio (fascismo, ditadura, totalitarismo, plutocracia, etc.), leva os comentadores a adoptarem esses nomes para classificar a situação; por outro lado (creio eu), a intuição de que algo novo está em curso fá-los hesitar na denominação a atribuir.
Talvez seja bom caminho começarmos por ver em que medida as actuais formas de poder coincidem com as definições clássicas.
Estaremos em presença de um novo totalitarismo? Passemos em revista as principais características clássicas do totalitarismo.
Feito o balanço geral, vemos que em bom rigor é difícil classificar o actual regime de poder como um totalitarismo, embora algumas das suas caracterísiticas coincidam. Esta coincidência, de resto, não tem grande significado, já que alguma filosofia política sugere que todos os regimes contêm forçosamente alguns aspectos totalitários – por conseguinte poder-se-ia dizer que o caso vertente se limita a obedecer à regra.
Nas democracias burguesas os grupos económicos e financeiros faziam-se representar tradicionalmente no poder público por figuras ideológica e politicamente adequadas aos seus interesses – doutorados e professores universitários (portanto membros de topo do poder ideológico) directa ou indirectamente simpatizantes desses interesses.
Entrámos agora numa era em que são os próprios interessados (banqueiros, gestores das grandes fortunas, administradores financeiros, etc.) que tomam assento nos ministérios, sem recorrerem a intermediários e autonomeando-se directamente (num claro sinal de tirania). Na comunicação social, em particular na TV portuguesa, os jornalistas clássicos foram despedidos e os representantes directos da finança tornaram-se comentadores e analistas residentes – os interesses financeiros deixaram de ser um objecto externo em análise; passaram a ser eles próprios, em pessoa, os argumentadores, trucidando todas as regras de ética jornalística. A plutocracia é evidente.
Os clássicos ministérios da propaganda dos regimes totalitários tornaram-se obsoletos. A comunicação social assumiu-se como máquina de propaganda do regime por excelência. Uma comunicação social que cede obedientemente o lugar dos comentadores independentes aos próprios comentados, demonstra que os gabinetes de censura e os mecanismos de patrulhamento ideológico são obsoletos na situação actual.
O processo de endividamento público é na realidade um mecanismo de saque sistemático dos bens e da riqueza colectiva, como o CADPP explica em vários artigos. Este facto, aliado à dispensa de intermediários e à instalação directa dos interesses financeiros nos cargos de poder, torna evidente a cleptocracia.
Na verdade não se pode dizer que nunca tenha sido criado um termo específico para designar o actual regime político. Há já algum tempo, alguém inventou o termo «tina» – acrónimo de «there is no alternative». Esta frase saiu da boca de Margaret Thatcher e tornou-se o seu mote político.

Devo confessar a minha repulsa pelo hábito anglófono de criar neologismos a partir de siglas, códigos e outras taras cabalísticas. No entanto o neologismo «tina» tem um mérito, depois de desencriptado: remete para uma frase fundadora de Margaret Thatcher, desvendando assim a grande precursora de todo este processo de transformação do poder na Europa.
Se algum ideólogo original de relevo fosse possível apontar para este movimento político tirânico e cleptocrata, seria sem dúvida Thatcher. Faz todo o sentido que, nesta altura dos acontecimentos, a indústria cinematográfica, fiel reprodutora da memória colectiva do ideal dominante, tenha produzido um filme centrado na figura de Margaret Thatcher [que eu não vi, e portanto não comento]. A prontidão com que a indústria cinematográfica consolida os ideais de momento é verdadeiramente impressionante.
Todas as linhas essenciais de pensamento e acção dos actuais poderes políticos foram lançadas a toda a força por Thatcher:
A frase inglesa «there is no alternative» remete, em bom português, para o conceito de fatalismo – temos de seguir este rumo político porque nenhuma alternativa se perfila no horizonte. Assim negado o livre arbítrio, encontramo-nos confinados ao reino da fatalidade e do destino. O famoso carácter fatalista ou fadista dos portugueses (mais um mito patético entranhado pelo salazarismo e estupidamente aceite sem discussão pelo mundo inteiro) torna-se minúsculo perante o fatalismo thatcheriano elevado à escala planetária.
Este fatalismo thatcheriano vem reforçar o carácter religioso do economicismo vigente – o deus-Economia não nos oferece alternativa, estamos condenados pela mão divina. A conjugação de todos estes factores não só reforça o carácter plutocrático e cleptocrático do regime, como lhe acrescenta até uma faceta teocrática muito subtil.
Nas tiradas em português dos políticos, governantes e comentadores, encontramos recorrentemente um leque de sinónimos da frase de Thatcher, entre os quais pontua o conceito de «inevitabilidade».
Olhando para a situação nestes dois países vemos o vórtice para onde toda a Europa está a ser atraída.
Na Hungria, as novas leis consagram a perseguição, repressão e violentação dos grupos étnicos e sociais mais frágeis (sem-abrigo, vagabundos, desempregados). Os trabalhos forçados já estão previstos na lei. A instauração de variantes modernas dos campos de concentração está à vista. Noutros domínios abundam novas leis de extrema-direita.
Na Grécia estão bem à vista todas as formas imagináveis de depauperação da população e dos bens colectivos; a redução da população à servidão medieval; o completo esvaziamento das estruturas democráticas. Pode dizer-se com plena razão que a Grécia foi reestruturada... Os bens colectivos, naturais e culturais, são vendidos em hasta pública; os presos comuns são abandonados pelas autoridades dentro das prisões, sem alimento nem assistência; aliás, a assistência médica e os stocks de medicamentos esgotaram-se em toda a parte; etc.
Muitos pensarão: «não, nada disso nos atingirá; trata-se de casos extremos, ao arrepio da tendência na Europa». Não nos iludamos – a Hungria encontra-se apenas «um passo à frente» porque aí a consciência e a resistência sociais não ofereceram oposição, facilitando a montagem do laboratório húngaro de extrema-direita; na Grécia, pelo contrário, existe consciência e resistência cívica, mas por isso mesmo é bom que olhemos para ela com atenção, a fim de compreendermos a que níveis de brutalidade e repressão os novos poderes públicos europeus estão dispostos a ir quando encontram resistência pela frente.
Embora estejamos a assistir a um golpe de estado palaciano em toda a Europa, isso não significa que os promotores do golpe não estejam dispostos a derramar o sangue dos seus opositores, de todas as formas possíveis e imagináveis.
No limite, apenas um tipo de confronto será possível: a insurreição – ainda que esse dia se encontre a muitos anos de distância. Até lá, será necessário que cresça a consciência de que não se trata de um confronto local, mas sim à escala do continente.
[1] O termo «economicismo» tornou-se um pouco problemático, porque políticos e economistas têm-no desvirtuado sistemática e propositadamente. Para mim continua a significar exactamente aquilo para que foi desenhado na origem: a noção de que a estrutura económica duma sociedade é não só predominante, mas também determinante (em relação às outras duas: o político e o ideológico) – noção esta que combato sem tréguas há três décadas. É neste sentido que o economicismo deve ser entendido em todas as páginas de minha autoria. Evidentemente, dada a origem do conceito, os termos dominante e determinante devem ser entendidos segundo a dialéctica hegeliana.