Eric Toussaint

Professor na Universidade de Liège, mestre em Ciências Políticas pelas Universidades de Liège e Paris VIII.

Presidente do CADTM Bélgica (Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, www.cadtm.org); porta-voz do CADTM internacional; membro do conselho científico da ATTAC França.

Foi membro da comissão de auditoria do Equador. Coordenador científico da Comissão para a Verdade sobre a Dívida Pública grega, instituída pela presidente do Parlamento grego em abril-2015.

Obras publicadas:

Bancocratie, Aden, 2014.
Procès d’un homme exemplaire
, Editions Al Dante, Marselha, 2013.
Auditar. Anular. Alternativa Política
, co-autoria com Damien Millet, Temas e Debates, 2013. Ed. francesa: AAA. Audit Annulation Autre politique, Seuil, Paris, 2012.
La dette ou la vie, co-autoria com Damien Millet, Editions Aden, 2011.
60 Preguntas 60 Respuestas, co-autoria Damien Millet, Icaria Editorial, 2009; ed em francês: Syllepse e CADTM

A crise que começou nos Estados Unidos em 2007-2008 atingiu em cheio a União Europeia a partir de 2008 e causou perturbações graves na Zona Euro desde 20101. Os bancos dos países mais ricos da Europa estão por trás desse contágio que começou nos Estados Unidos e alcançou a Europa, porque tinham investido massivamente em produtos financeiros estruturados. Dito isto, é importante explicar por que razão a crise atingiu mais fortemente a União Europeia, e em particular a área euro, do que os Estados Unidos.

Entre os 28 países da União Europeia, 18 países têm uma moeda comum, o euro2. A UE tem cerca de 500 milhões de habitantes3, quase metade dos habitantes da China, da África ou da Índia, 2/3 da América Latina e 50% mais do que os EUA.

Há uma grande disparidade entre os países da União Europeia. Alemanha, Grã-Bretanha, França, Holanda, Itália, Bélgica e Áustria são os países industrializados mais ricos da UE. 11 países são provenientes da antiga Europa de Leste (três repúblicas bálticas – Estónia, Lituânia, Letónia – Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Bulgária e Roménia, que faziam parte do bloco soviético, a Eslovénia e a Croácia que faziam parte da Jugoslávia). Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre estão a ser muito afectados pela crise na Zona Euro.

«Os mercados tornaram-se demasiado grandes e complexos e evoluíram demasiado depressa para continuarem sujeitos à supervisão e à regulação do século XX. Não é de estranhar que esse Leviatã financeiro mundial esteja para lá dos horizontes de compreensão dos operadores do mercado, mesmo dos mais avisados. Os reguladores financeiros são responsáveis ​​por supervisionar um sistema muito mais complexo do que aquele que existia quando foram redigidos os regulamentos que ainda hoje regem os mercados.» (Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal)

Em Outubro de 2012, o FMI forneceu uma chave para entender o aprofundamento da crise na Europa. O seu gabinete de estudos veio dizer que cada euro de redução da despesa pública provoca uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) entre 0,9 e 1,7 euros.

5ª parte da série «Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado». Nesta secção da série estudam-se os mecanismos de financiamento dos bancos. Desde o branqueamento de dinheiro da droga até operações de short-selling, trading de alta frequência, empréstimos com garantias inexistentes, etc. E, como sempre, o beneplácito dos governantes perante toda a espécie de especulações obscenas, capazes de reduzirem as populações à miséria em escassas fracções de segundo.

Nesta 4ª parte da série «Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado» Eric Toussaint explica-nos alguns dos mecanismos essenciais de dominação económica dos bancos. Ao longo desta descida aos infernos da usura vamos compreendendo a estranha forma como, por exemplo, os bancos conseguem ganhar dinheiro com o facto de os seus clientes já não terem dinheiro para pagar a hipoteca da casa que compraram a crédito. Não nos é difícil extrapolar do consumidor-devedor para o estado-devedor...

3ª parte da série «Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado!».
Por toda a parte no mundo, o Capital lançou uma ofensiva contra o Trabalho. É na Europa que, desde 2008, a ofensiva assume uma forma mais sistemática, a começar pelos países da periferia. Embora os bancos (e o capitalismo enquanto sistema) sejam responsáveis pela crise, são sistematicamente protegidos. Por toda a parte, o reembolso da dívida pública serve de pretexto para os governos justificarem uma política de ataque aos direitos económicos e sociais da esmagadora maioria da população. Se os movimentos sociais quiserem enfrentar vitoriosamente esta ofensiva devastadora, têm de atacar a questão da dívida pública, a fim de retirarem ao poder o seu argumento principal.

2ª parte da série «Bancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado!»
Em 2012, os bancos, a nadarem em liquidez, compraram grandes quantidades de títulos de dívida pública dos seus países. O BCE parecia ter descoberto a solução – o dinheiro emprestado aos bancos era, em parte, utilizado na compra de títulos de dívida pública de Estados da zona euro. É fácil de ver que, do ponto de vista do interesse da população dos países em questão, teria sido necessário adoptar uma abordagem completamente diferente: o BCE deveria emprestar directamente aos Estados a menos de 1% (como acontece com os bancos privados desde maio de 2012) ou mesmo sem juro. Dever-se-ia também socializar os bancos, sob controlo cidadão.

Desde 2007-2008, os grandes bancos centrais (BCE, Banco da Inglaterra, a Fed nos EUA, o Banco da Suíça) têm como prioridade absoluta tentar evitar o colapso do sistema bancário privado. Contrariamente ao discurso dominante, a principal ameaça para os bancos não é a suspensão do pagamento da dívida soberana pelo Estado soberano. Desde 2007, nenhuma das falências bancárias foi causada por essa falta de pagamento. Nenhum dos resgates bancários levados a cabo pelos Estados teve como causa a suspensão de pagamentos por parte de Estados sobreendividados. Desde 2007 o que ameaça os bancos são as dívidas privadas que os bancos foram gradualmente fomentando devido à grande desregulação iniciada em finais dos anos setenta e concluída nos anos noventa.

Estamos a viver e a atravessar uma das piores crises mundiais do sistema capitalista. Mas o capitalismo não vai morrer de morte natural. As crises fazem parte do metabolismo do capitalismo. Só a acção consciente dos povos pode destruir e fazer ultrapassar o capitalismo e abrir caminho ao socialismo democrático.

A Grécia, à semelhança de todos os países periféricos europeus, encontra-se numa situação de endividamento, de desastre social com traços de tragédia humanitária e de limitação de soberania – uma situação comparável em muitos aspectos à da Alemanha no pós-guerra.

Nesta série de artigos Eric Toussaint analisa e compara os procedimentos e tratados aplicados à Grécia e à Alemanha, enquanto países devedores. Este segundo artigo descreve alguns aspectos do mecanismo de acumulação capitalista assente no endividamento do Estado e na privatização dos bens colectivos, à custa do povo grego.

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